quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Reviravolta radical marca segmento de empresas de streaming

Filmes cancelados pouco antes de serem lançados, produções desaparecendo das plataformas de streaming semanas após o lançamento, demissões em massa de funcionários e prejuízos crescentes. Poucas histórias do mundo corporativo tiveram uma reviravolta tão radical quanto o das empresas de streaming.
À medida que o mundo se prepara para uma crise econômica nos próximos meses, os investidores das companhias de streaming cobram lucros e estão mais resistentes em emprestar dinheiro para as gigantes de mídia, que por anos perderam bilhões de dólares investindo em produções.
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O fato é que não há assinantes suficientes para tantas plataformas de streaming. Também se tornou inviável assistir a tudo que é produzido e a qualidade das produções tem deixado a desejar, apesar de o ano de 2022 ter marcado um recorde histórico. Empresas do setor devem investir juntas mais de R$ 1,3 trilhão em produções apenas neste ano, um aumento de 14% em relação a 2021
Mas se a conta não fechava com a economia mundial crescendo, a perspectiva de uma recessão global causada pela guerra na Ucrânia e a disparada da inflação no mundo deixou o cenário ainda pior.
As últimas notícias das líderes do setor dão uma ideia do atoleiro que elas se encontram. Mais revelador ainda são as bruscas mudanças de estratégia e os planos surpreendentes para sobreviver à recessão.
A Warner Bros. Discovery (WBD) - cujas propriedades incluem o estúdio de cinema Warner Bros. e os canais a cabo TNT, HBO e CNN, além da HBO Max - anunciou um prejuízo de US$ 3,42 bilhões no segundo trimestre deste ano.
Segundo Gunnar Wiedenfels, diretor financeiro do grupo, os prejuízos são resultado de despesas não planejadas da compra da Warner pela Discovery. A gigante de mídia nasceu com a premissa de encontrar US$ 3 bilhões em sinergias nos dois primeiros anos após a conclusão do negócio.
Sinergias significam cortes de custos e demissões de funcionários. Ao anunciar os resultados, a companhia também disse que a meta de US$ 3 bilhões terá de aumentar. A empresa planeja pagar US$ 6 bilhões de sua dívida até o final de agosto.
Segundo Wiedenfels, "2022 será claramente um ano de transição" e alertou que a WBD está diminuindo as projeções financeiras para 2022 e 2023, em parte devido ao ambiente macroeconômico que está diminuindo a publicidade no setor.
Isso explica por que dezenas de diretores da empresa já foram demitidos, e uma nova leva de cortes acontecerá nas próximas duas semanas, inclusive no Brasil. Por enquanto o núcleo de novelas nacionais da HBO segue vivo, mas se realmente escapar da degola, será muito menor do que se imaginava.
Atrações que estavam na HBO Max, como os programas de Ivete Sangalo, Angélica e Sandy, foram tiradas da plataforma. Não foram casos isolados. Outras seis produções originais da HBO Max sumiram sem aviso prévio.
Filmes recém-lançados como Moonshot, comédia romântica de ficção científica estrelada por Lana Condor e Cole Sprouse; a comédia "Superinteligência", com Melissa McCarthy; o remake "As Bruxas", com Anne Hathaway; a comédia An American Pickle, de Seth Rogen; Locked Down, com Chiwetel Ejiofor; e o drama Charm City Kings também desapareceram.
Os filmes Batgirl e Scoob! Holiday Haunt, apesar de estarem prontos, tiveram o lançamento cancelado pela WBD. Batgirl custou US$ 90 milhões. Diversos projetos em desenvolvimento também morreram.
Segundo Anthony D'Alessandro, do Deadline, "os cineastas foram informados de que se tratava de uma manobra de 'contabilidade de compra' disponível para a WBD. Esta "oportunidade fiscal" expira em meados de agosto e permite que a companhia use o prejuízo como crédito fiscal. A WBD está tentando reduzir sua dívida, que no final do segundo trimestre era de US$ 53 bilhões.
Em um momento que a publicidade vem caindo e o prejuízo aumenta, surpreendeu o anúncio da WBD de que planeja lançar uma versão gratuita de seu streaming no ano que vem. A companhia também confirmou essa semana a informação divulgada em março que reuniria os serviços Discovery+ e HBO Max em uma única plataforma.
A notícia pegou o mercado de surpresa. Se está difícil ganhar dinheiro cobrando assinaturas, o desafio aumenta ao oferecer o serviço de graça. A mudança também deve "roubar" anunciantes dos canais de TV da WBD, que ainda são a principal fonte de receita e dão lucros consideráveis.
A novidade é uma bomba para a Netflix e o Disney+. Os dois serviços anunciaram este ano que nos próximos meses vão passar a oferecer planos de assinatura mais baratos e com publicidade. Mas o plano gratuito da HBO Max leva a disputa para patamares ainda mais baixos.
A Netflix e Disney+ terão de enfrentar um competidor robusto após a fusão da Discovery+ e HBO Max. As opções de streaming gratuitos já existem. Tubi, Pluto TV, Freevee e Vix tem apresentado números robustos de crescimento, mas nenhum com um catálogo tão diverso como o da WBD. A Discovery é reconhecida por seu streaming e a Warner Bros. pelas franquias da D.C. e HBO.
O aumento da oferta de plataformas com anúncios também deve pressionar para baixo os preços de publicidade pagos pelas marcas. A TV aberta e à cabo vão ter no streaming um concorrente de peso, com uma audiência crescente e maior volume de dados sobre o público nessas plataformas digitais.
A WBD disse que fechou o trimestre com 92,1 milhões de assinantes em suas plataformas de streaming, um aumento de cerca de 1,7 milhão em relação ao primeiro trimestre. Isso se compara aos 220,7 milhões da Netflix e 205,6 milhões da Disney, cujos serviços incluem Disney+, Hulu e ESPN+, de acordo com os números divulgados mais recentemente pelas empresas.
Na Disney as notícias já não eram animadoras. O Disney+ segue dando prejuízo e a plataforma tem tido dificuldades de crescer entre o público mais velho, que tende a ser mais fiel e ter maior poder aquisitivo. Além disso, a plataforma perdeu a disputa pelo campeonato indiano de críquete, principal motor do crescimento de assinaturas da plataforma nos últimos anos.
Para piorar, os heróis da Marvel, imbatíveis nos cinemas e sucesso no streaming, perderam força. Recentes lançamentos do Disney+ como Miss Marvel e Cavaleiro da Lua ficaram abaixo da expectativa. Nos cinemas a história também não é favorável.
Desde o início de 2021, a bilheteria média global dos seis filmes produzidos pela Marvel caiu para US$ 773,6 milhões - aproximadamente metade da média de US$ 1,5 bilhão dos seis filmes anteriores. "Eternos" de 2021 faturou apenas US$ 402,3 milhões brutos, Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis, US$ 420,7 milhões e "Viúva Negra" US$ 373,2 milhões. "Thor: Amor e Trovão" estreou bem, mas caiu 80% na bilheteria no final de semana seguinte.
Para piorar, o Hulu está atraindo mais assinantes de streaming para a Disney do que a Marvel ou Star Wars. Novas assinaturas do Hulu superaram as da principal plataforma de streaming da Disney em 18 dos últimos 24 meses, segundo dados da consultoria Antenna.
O problema é que a Disney é dona de apenas 77% do Hulu. A Comcast, dona do concorrente Peacock, tem o restante da propriedade. Isso explica por que o Hulu sempre foi um patinho feio na Disney, que priorizou os investimentos e esforços no Disney+. A Disney terá a oportunidade de comprar o Hulu em janeiro de 2024, mas provavelmente terá de pagar mais do que imaginava.
Mesmo o plano da Disney de vender a ESPN está sendo descartado. A plataforma tem sido importante para atrair assinantes à medida que os esportes se tornam cada vez mais importantes no setor. A Disney planeja gastar US$ 32 bilhões em conteúdo este ano, sendo um terço do investimento em direitos esportivos.
Se por um lado a Netflix não dá prejuízo, diferentemente dos concorrentes que crescem, ela perde clientes. No segundo trimestre, a empresa surpreendeu positivamente o mercado ao perder apenas 1 milhão de assinantes. Mas o número foi favorável porque a Netflix projetava perder 2 milhões de assinantes.
O que salvou o resultado da Netflix foi o sucesso de Stranger Things. Diferentemente das temporadas anteriores, a produção teve seu lançamento estendido ao longo de meses, não ficando disponível na plataforma toda de uma vez. Isso segurou os assinantes ao longo do trimestre, melhorando o resultado.
Mesmo assim a empresa cortou mais de 500 funcionários e deve rever seus investimentos em conteúdo. No último ano a empresa já perdeu 60% de seu valor de mercado.
Em comum, além dos dias difíceis, as empresas de streaming planejam aumentar o custo da assinatura ou fazer você assistir a mais publicidade para ajudar a pagar a conta. Além de explorar uma plataforma de streaming gratuita, a Warner Bros. Discovery disse na quinta-feira que estava procurando aumentar os preços de seus produtos de assinatura e se afastar das ofertas com grandes descontos. A Disney também anunciou que fará aumentos nos próximos meses em diversos mercados.
Menos conteúdo disponível também parece ser um caminho natural para cortar custos. A era de ouro do streaming chegou ao fim. Agora, a ordem é pagar a conta.
É difícil analisar o Globoplay. Diferentemente de seus pares internacionais, a plataforma brasileira não divulga o número de assinantes ou o valor dos investimentos nem o tamanho do prejuízo. A expectativa do Globoplay é dar lucro somente em 2024 ou 2025. De todo modo, o streaming da Globo tem a vantagem de não depender de investidores externos e o grupo tem caixa robusto, com mais de R$ 15 bilhões. A dívida de cerca de US$ 1 bilhão, mesmo em dólar, é avaliada como pequena em comparação aos pares internacionais.
Além disso, a TV ainda fatura o suficiente para apoiar os investimentos da Globo no digital e, segundo os diretores da empresa, os donos tem visão de longo prazo e estariam dispostos a seguir investindo para garantir o posto de gigante local, permanecendo como o maior produtor de conteúdo brasileiro.

Fonte: UOL



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