terça-feira, 26 de abril de 2022

O capitalismo “bate-estaca” dos EUA ameaçando o mundo

Wellington Duarte

A guerra na Ucrânia desencadeou uma crise humanitária que a Europa não via desde a Guerra de 1939-45, bem mais vista do que o desastre humanitário que foi a destruição da Iugoslávia, em fins da década de 80, que gerou uma devastadora guerra civil nos Balcãs, que matou quase duzentas mil pessoas, destroçou a estrutura estatal que existia e lançou milhares de pessoas ao chamado “Deus dará”. Parece que a crise humanitária na Ucrânia, que virou um apocalipse de acordo com os meios de comunicação ocidentais, que relativizaram as crises humanitárias no Afeganistão, Iraque, Síria e Iêmen, todas eles provocadas diretamente pelos EUA ou por seu testa-de-ferro no Oriente Média, o governo saudita, é a maior tragédia da humanidade desde o erguimento da civilização.
Quem imaginaria, em abril de 2021, que estaríamos vendo uma guerra na Europa. Guerra entre estados. Guerra expondo as fraturas de um processo não resolvido, no caso o fim da URSS, e que agora mostra a conta. A tentativa de derrubar o governo do Cazaquistão e Belarus, ambos com o mesmo roteiro, o das “primaveras” já antecipava que as coisas tinham evoluído na Casa Branca.
Quando Biden assumiu o governo dos EUA, derrotando o neofascista Trump, foi um alívio para o mundo. Parecia que o veterano líder democrata traria um momento de diminuição das tensões mundiais, já que Trump era especialista em chafurdar o mundo e criou uma rede de extrema-direita pelo mundo, que hoje assombra as débeis democracias representativas ocidentais. Biden parecia trazer as pombas da paz. Parecia.
Biden trouxe de volta o “grande porrete”, que é a prática das relações internacionais dos EUA mundo afora. E o “grande porrete” chegou apontando o dedo para a China e a Rússia. Claro que os tradicionais “estados-demônios” (Irã, Coréia do Norte, Venezuela, Cuba e Síria) não saíram da lista de Biden, mas a ameaça chinesa era real e concreta e não passava por confrontos militares e sim comerciais. A secular China estava (e está) dando uma goleada na forma de como abrir mercados e conquistar parcerias econômicas. Enquanto a China se apresenta com dinheiro para financiamento e empréstimos, os EUA chegam com retórica e armas.
Biden encarou a nova “rota da seda” como uma ameaça real para os EUA, na medida em que a China construiu um rede comercial que pode gerar muito comércio e consequentemente muitas divisas. Era preciso brecar a China e como os EUA se movem por uma visão de relações internacionais baseadas na força e na ameaça, passou a fustigar a China, criticar o governo quanto aos direitos humanos, uma patética hipocrisia, visto que nos EUA falar em Direitos Humanos para latinos e negros, chega a ser hilário; a empurrar Taiwan para irritar a China e ultimamente vem insinuando que vai armar os chineses dessa ilha, um ataque frontal aos interesses chineses na região.
No caso da Rússia a postura foi mais clara. Biden animou os europeus a aceitaram o emparedamento da Federação Russa, com uma nova onda de expansão da Otan, a tal ponto que se a Rússia não reagisse, provavelmente veríamos em breve, soldados dos EUA debaixo da cama de Putin. Mas, além da questão da Otan, a Rússia, que estava preocupada em reocupar “seu lugar no mundo”, talvez revigorando um velho discurso de nacionalismo grão-russo, também agia no sentido de usar o gás que vende a Europa, como colchão de proteção contra o animado Biden, que decidiu usar a Ucrânia como “boi-de-piranha” para atacar a Rússia. Biden queria a guerra. Biden tem uma guerra.
O problema é que quem escreveu o roteiro para Biden, esqueceu de colocar a chamada “questão econômica”, que agora desponta, arrefecendo os ânimos dos que estavam dispostos a derrubar o regime russo. Os danos econômicos do conflito já pontam para uma desaceleração significativa do crescimento global em 2022 e certamente aumentarão a inflação. Os preços dos combustíveis e dos alimentos aumentaram rapidamente, atingindo com mais força as populações vulneráveis ​​em países de baixa renda.
O crescimento global deverá desacelerar de uma estimativa de 6,1% em 2021 para 3,6% em 2022 e 2023. Isso é 0,8 e 0,2 pontos percentuais menor para 2022 e 2023 do que o projetado em janeiro. Além de 2023, o crescimento global deverá cair para cerca de 3,3% no médio prazo. Os aumentos nos preços das commodities induzidos pela guerra e as crescentes pressões sobre os preços levaram a projeções de inflação para 2022 de 5,7% nas economias avançadas e 8,7% nos mercados emergentes e economias em desenvolvimento – 1,8 e 2,8 pontos percentuais acima do projetado em janeiro passado. Esforços multilaterais para responder à crise humanitária, evitar maior fragmentação econômica, manter a liquidez global, gerenciar o sobre-endividamento, combater as mudanças climáticas e acabar com a pandemia são essenciais.
As projeções são sombrias. O país que puxa o sistema no mundo, os EUA, que tiveram um aumento no PIB de 5,7% em 2021, em 2022 essa variação cairá para 3,7% e pode recuar para 2,3% em 2023. Já o “motor da Europa”, a Alemanha, que pouco cresceu em 2021, com 2,8%, deverá ficar com a economia estagnada, com 2,1% nesse ano e 2,7% em 2023. O Reino Unido, que comemorou uma variação do PIB de 7,4% em 2021, quase empatando com a China, que cresceu 8,1%, projeta uma queda relevante, já que em 2022 a projeção é de 3,7% e em 2023 poderá cair para pífios 1,2%.
A pandemia fez encolher a economia do mundo e a guerra na Europa está desestabilizando o sistema, exigindo uma repactuação no campo da geopolítica, mas com Biden liderando a velha política “bate-estaca” dos EUA, fica difícil imaginar os diplomatas estadunidense se comportando como diplomatas e não como representantes do velho pistoleiro.
Graças a Biden, que expressa a essência do estado norte-americano, como uma nação que exige um mundo no qual a opinião dos EUA prevaleça e que deve se acomodar ao modelo de democracia saído dos mísseis do Pentágono, provavelmente teremos que ver o nascimento da “nova ordem”, multipolar, regada a muito sangue e sofrimento.

Wellington Duarte é professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN, doutor em Ciência Política e presidente do Sindicato dos Professores da UFRN.



Nenhum comentário:

Postar um comentário