quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Por que será preciso defender Bolsonaro de Zuckerberg

Thaís Oyama

Quem, como esta colunista, acredita que Twitter, Facebook e Instagram agiram de forma arbitrária ao banir Donald Trump de seus domínios, poderá em breve se ver obrigado a defender Jair Bolsonaro.
O presidente americano foi punido, de acordo com as empresas, por violar regras internas de conduta (sempre genericamente descritas, como lembra o professor e filósofo Pablo Ortellado) que implicariam "incitação à violência" e "risco de provocar mais incitação à violência".
Se a aplicação dos critérios para suspensão e banimento de usuários fosse objetiva - ou seja, caso ela se ativesse à letra das regras estabelecidas pelas plataformas— não só Trump como Bolsonaro estariam há muito fora do jogo. No caso do presidente brasileiro, só nos itens "publicação de desinformação que possa causar danos reais às pessoas" (Facebook e Instagram) e "conduta de propagação de ódio" (Twitter), o ex-capitão tica todo o gabarito.
Ocorre que até a invasão do Capitólio por trumpistas, as empresas que monopolizam as redes sociais não se pautaram pelo princípio da coerência — preferiram fazer vista grossa para muita gente. Prova disso é a extensa lista de "impunes" notórios, que inclui o aiatolá Ali Khamenei, Vladimir Putin e Nicolás Maduro, para ficar só na categoria dos chefes de estado.
O colorido espectro ideológico dos "infratores" impunes confirma que as empresas, ao contrário do que diz sobretudo a direita, não se movem, ou deixam de mover-se, por convicções políticas ou simpatias partidárias (seus funcionários podem tê-las e é certo que nos Estados Unidos o partido Republicano não é o preferido da maioria).
As empresas, porém, na qualidade de agentes econômicos, querem apenas continuar existindo e gerando lucro.
Assim, ações de usuários célebres que provoquem campanhas de boicote, com perda de seguidores e anunciantes, ou ameaças de mudanças indesejadas nas regras de regulamentação, causam suspensões, banimentos e notas oficiais escritas em tom indignado. Já iniciativas do mesmo gênero, mas estéreis em reações negativas para as empresas, dispensam providências drásticas.
Twitter, Facebook e Instagram suspenderam e baniram Donald Trump neste momento não porque querem um mundo melhor, mas porque assim determinou a conveniência política, por sua vez, determinante de conveniências inerentes a todo negócio.
E é por isso — o fato de essas empresas estarem até hoje livres para usar dois pesos e duas medidas de acordo com a sua conveniência — que é preciso defender Bolsonaro caso o presidente tome um cartão vermelho de Mark Zuckerberg.

Thaís Oyama é jornalista.



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