quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Fim do auxílio emergencial provoca fuga de capital

César Fonseca

Salve-se quem puder; com colapso do consumo à vista, por conta do fim do socorro emergencial, aprovado pelo Congresso para permitir a mais de 60 milhões de pessoas sobreviverem sem emprego destruído pelo encavalamento da crise neoliberal com a pandemia do novo coronavírus, os capitalistas saem em desabalada fuga de capital; o BC, apavorado diante da corrida cambial, joga dólares no mercado, gritando calma que o leão é manso; verifica-se o obvio; sem o auxílio emergencial, expande concentração ainda mais forte da renda, aprofunda miséria e a desigualdade social; configura-se o que os próprios neoliberais, como Armínio Fraga, ex-presidente do BC, na Era FHC, alertam já há algum tempo: o capital dá no pé, nesse contexto, em que dívida pública chega à casa dos 100% do PIB, sem que o BC sequer possa puxar juros para combater a alta de preços, pois, se partisse para essa alternativa, implodiria o endividamento estatal. 
A autoridade monetária esgotou sua capacidade de executar política monetária; se correr, isto é, se subir o juro, o bicho pega, detonando dívida pública; se ficar, ou seja, deixar o juro caminhar para zero ou negativo, produzindo fuga cambial incontrolável, o bicho come; nesse ritmo, pode ir embora rapidinho o estoque de reservas em dólares, acumuladas pelo PT durante quatro mandatos de desenvolvimento com valorização de salário e distribuição de renda, favorecidos pela expansão de commodities; configura-se, na prática, princípio de dolarização, como ocorre na Argentina e Equador. 
Só estão conseguindo sobreviver nesse cenário os especuladores que saem das aplicações em renda  fixa e variável e deslocam para a bolsa, onde a rentabilidade na economia fictícia está bem melhor do que na economia real de bens e serviços, afetada pela destruição do poder aquisitivo dos salários; também, sobrevive, satisfatoriamente, o agronegócio, diante da valorização dos preços dos alimentos no mercado internacional, favorecidos pela desvalorização da moeda nacional; expande com o real desvalorizado as exportações agrícolas, de modo que os empresários preferem exportar do que jogar suas mercadorias no mercado interno, prejudicado pela bancarrota do consumo.
Enquanto durou, o auxílio emergencial representou salvador da pátria para o comércio, a indústria e os serviços, bombeando, principalmente, o varejo; com extinção dele, potencializa-se a insuficiência de consumo; teoricamente, redução do consumo, diante da queda do poder de compra da população, produziria deflação, mas a desvalorização do real, bombeando exportações, favorece os empresários que diminuirão oferta interna, para manter elevado os preços e constante sua taxa de lucro; compensa, com isso, concorrência competitiva dos alimentos em comparação como as commodities manufaturadas; inverte-se o processo de deterioração dos termos de troca; essa passa ocorrer em relação aos produtos industrializados, enquanto se mantêm elevados os preços dos produtos primários; o prato de lentilha passa a valer mais que ouro; mesmo com queda previsível da oferta, por conta do fim do auxílio, os preços se manteriam elevados, se estiver garantida a exportação, proporcionada pela desvalorização do real, que, em 2020, já perdeu 40% do seu valor em relação à moeda americana. 
O governo vai ter que interferir no mercado, para garantir alimentos à população, afetada, a partir de agora, pelo fim do auxílio emergencial; a questão central passa a ser então o avanço do subconsumismo, dado pela brutal queda da demanda, com destruição do poder de compra dos salários. 
Sem auxílio emergencial dos R$ 600, que virou referência para o salário mínimo, os exportadores aumentarão seus lucros com maior redução dos salários; a referência do salário real ficará abaixo dos R$ 600; consequentemente, haverá não apenas exportação de alimentos mais baratos, mas, também, maior extração, pelos importadores, de mais valia com redução salarial. 
Diminuição do poder de compra, com fim do auxílio emergencial, derruba, por sua vez, lucratividade do capital diante da queda do consumo interno; vem aí, portanto, mais arrocho salarial para haver mais exportações de commodities, com lucros maiores para os exportadores e maiores vantagens comparativas para os importadores. 
Reprimarização econômica colonial acelerada sinaliza dolarização da economia.

César Fonseca é jornalista e repórter de política e economia.



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