segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Encontro de líderes de Israel e da Arábia Saudita marca nova etapa no Oriente Médio

Os líderes de Israel e da Arábia Saudita realizaram uma reunião secreta no domingo (22) à noite, o primeiro encontro do tipo entre os países rivais.
Apesar da natureza sigilosa, dado que ambas as nações não têm relações diplomáticas, o encontro entre o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu e o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman foi desenhado para ser visto por todos na região —em especial o inimigo que os une, o Irã.
Bibi, como o premiê é conhecido, voou para Neom, a cidade futurista que MbS, como o governante de fato do reino saudita é apelidado, está construindo na costa do mar Vermelho.
Ele decolou às 19h30 (14h30 em Brasília), e seu avião desapareceu do radar perto do território saudita, reaparecendo em Tel Aviv por volta da meia-noite. Ao mesmo tempo, pousava em Neom o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, que por lá ficou das 20h30 às 23h30.
MbS havia acabado de ser o anfitrião virtual do encontro do G20, grupo de economias mais desenvolvidas. Nenhum governo comentou o encontro, mas ele foi vazado por diversos órgãos de mídia estatais israelenses, inclusive a Rádio do Exército.
Tal publicidade não é gratuita. Durante anos, autoridades de ambos os países mantêm encontros discretos, geralmente em território neutro. Uma reunião Bibi-MbS altera o patamar da relação, abrindo o caminho para que ambos os países estabeleçam laços.
A presença de Pompeo também não é trivial. Estrela radical de um governo derrotado nas urnas, ele está numa frenética atividade de fim de mandato. E sabe que o Oriente Médio é o lugar em que Donald Trump deixará seu principal legado.
Nem todo mundo está feliz com ele, claro, a começar pelos palestinos. O grupo, que já não negocia a paz com seus vizinhos israelenses há alguns anos, foi colocado de lado naquilo que Trump disse ser o plano definitivo para estabilizar a região.
Na prática, Washington cedeu aos desígnios de Tel Aviv, permitindo um maior controle territorial por parte do Estado judeu de áreas árabes e efetivamente esterilizando o arremedo de governo comandado na Cisjordânia pela Autoridade Nacional Palestina e, em Gaza, pelo grupo extremista Hamas.
Em troca, foi estabelecido um diálogo inédito no mundo árabe, e dois países do golfo Pérsico aliados de Riad, os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein, entraram em acordo com Israel.
Logo depois, o Sudão assinou um tratado de normalização com Tel Aviv — com grande simbolismo, dado que o país havia lutado contra os judeus nas guerras árabe-israelenses, ao contrário das nações do golfo.
A decorrência lógica seria a aproximação com a Arábia Saudita, monarquia absolutista que é o centro do ramo majoritário do muçulmanismo, o sunismo. Ambos os países percebem o Irã, nação líder do grupo minoritário da religião, o xiismo, como adversário existencial.
Recentemente, o governo saudita inclusive especulou publicamente a possibilidade de adquirir armas nucleares, algo que Israel possui, caso o regime dos aiatolás em Teerã vá em frente e desenvolva a bomba. Trump fez da pressão sobre os iranianos uma política oficial.
Para Bibi, uma perspectiva de paz com Riad vem em boa hora: ele enfrenta novas acusações de corrupção na compra de submarinos alemães e tem o maior rival, Benny Ganz, instalado como ministro da Defesa no governo de coalizão, de olho em sua cadeira.
Já MbS busca uma reabilitação no Ocidente. O jovem príncipe de 35 anos, visto inicialmente como dinâmico e modernizador, teve sua reputação arrasada com a violenta guerra que patrocina contra rebeldes pró-Irã no Iêmen e com o assassinato a sangue frio de um jornalista saudita na Turquia.
Ele também enfrenta oposição interna na família real, resolvida à moda saudita por ora, com prisões e expurgos. Por fim, há o desafio da queda do preço do petróleo, vital para o país, devido à pandemia.
Mas é o Irã que liga, ao fundo, os dois. Há poucas dúvidas de que o governo de Joe Biden continuará a estimular tal aproximação, e para o democrata seria um belo gol de começo de mandato se tivesse Bibi e MbS nos jardins da Casa Branca.
Há alguns óbices, a começar pela forma como tratar Teerã. Trump radicalizou a relação, que havia sido azeitada com o acordo nuclear promovido pelo antecessor, Barack Obama, de quem Biden foi vice. É de se especular que ele poderá buscar reduzir a tensão atual.
E o seu partido tem tradição, que remonta à primeira paz entre Israel e um país árabe, o Egito em 1979, de buscar representatividade para os palestinos. Afinal, foi o democrata Bill Clinton que entrou para a história em 1993 com o estabelecimento das áreas autônomas palestinas e o reconhecimento mútuo.
Só que esse processo de paz, originado nas negociações de Oslo nos anos 1990, está morto. Se Biden tentar revivê-lo, terá de lidar com o fato de que o mundo árabe, a começar por sua potência líder, rifou os palestinos no caminho.

Fonte: Folha de São Paulo



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