segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Ecos de outubro

Cristiana de Faria Cordeiro

Em quase 23 anos de magistratura, já me deparei com incontáveis situações em que a mulher vítima tem suas entranhas (literal e figurativamente) expostas, de tal modo que o que lhe foi feito possa parecer justificável ou compreensível. Sem dúvidas, o sistema de justiça pode ser drasticamente revitimizador.
Pousando os olhos sobre o que está acontecendo no mundo “fora dos autos”, tendo como termômetro as redes sociais, especialmente o Twitter, vejo que a violência de gênero já não é banalizada como outrora.
Contextualizando os acontecimentos de outubro (sem exagero nos spoilers do filme e do podcast, prometo):
Caso 1. No filme de Sacha Baron Cohen, lançado dia 23, a personagem Tutar é uma adolescente de quinze anos, assediada e humilhada por homens e mulheres adultos. Não quaisquer adultos, mas aqueles que se encontram em “posição de autoridade”: um médico cirurgião plástico, um religioso consultor antiaborto, uma coach de sugar babies e um político de grande notoriedade.
Caso 2. As gravações autorizadas pela justiça italiana, no processo que levou à condenação de Robinho, revelam que o jogador de futebol admitiu ter praticado sexo oral com uma jovem que estava “completamente bêbada”, num estupro coletivo. 
Caso 3. Em primoroso roteiro e trabalho de pesquisa impecável, o podcast Praia dos Ossos, idealizado e apresentado por Branca Vianna, esmiúça a trajetória de Ângela Diniz: desde sua infância, em Belo Horizonte, passando por seu feminicídio pelo companheiro Doca Street, em 30 de dezembro de 1976, em Búzios, e culminando com um julgamento midiático que a fez parecer culpada por seu próprio assassinato.
Caso 4. Uma dupla de tiktokers, ele com 19 anos e ela com 13 (inicialmente, falou-se que ela teria 12), assumiu o namoro publicamente, e chegou a postar foto e vídeo dando selinho (com as mães de ambos fazendo torcida). 
Bem verdade que temos vivido tempos estranhos, em que vozes de um passado distante parecem ter ganhado corpo e status. Anda colocando manguinhas de fora gente do tipo do sujeito que, em 21/12/1981, escreveu carta à redação da Tribuna da Imprensa, acusando as integrantes do grupo SOS Mulher de serem pessoas “que não têm o que fazer em casa. Nem mesmo sexo, pois devem ser solteironas (ou desquitadas), classe média, extravasando esse complexo através do que dizem ser ‘uma luta’ contra a violência. Só porque uma ou outra mulher andou levando uns tapas de seus maridos, possivelmente com razão, elas se acham no direito de reclamar e pixar muros pela cidade.” 
Mais de quatro décadas depois do assassinato de Ângela Diniz, quem sabe seja hora de celebrar uma sociedade (e uma opinião pública) que já não é tão condescendente e complacente com a misoginia e o machismo?
No caso Robinho, a reação negativa culminou com a suspensão do contrato recém assinado com o Santos F.C. E raros foram os que se sensibilizaram com o vídeo em que jogador reafirma a sua inocência e declara que seu erro foi trair a esposa. 
No caso dos tiktokers, a conta “Quarentenados” foi derrubada depois que a hashtag “pedófilo” alcançou os trending topics do Twitter. A dupla chegou a gravar um vídeo declarando que a história do namoro seria uma “trollagem”. Posteriormente o rapaz se disse gay e, por fim, parece que o caso vai ser apurado fora do “tribunal do Feicebuque” (parafraseando o disco homônimo de Tom Zé), ou seja, oficialmente.
Quanto a Tutar, “filha de Borat”, a repercussão das situações constrangedoras (e criminosas, caso levarmos em conta que, para todos os efeitos, a personagem é menor de idade) pelas quais passa trouxeram uma polêmica ainda maior à produção de Baron Cohen. Com o saldo positivo de ter aberto necessário debate sobre temas como dismorfia corporal, aborto e assédio sexual.
O que o podcast Praia dos Ossos nos mostra, através da trajetória de Ângela Diniz, é que tanto nos anos dourados como nos dias atuais há mulheres que “causam desconforto” e, por isso mesmo, são objetificadas, depreciadas e descartadas.
O que há a ser celebrado, então? Afinal, o Brasil é um dos países recordistas de feminicídios, o que se agravou durante a pandemia…
Posso estar sendo otimista, mas perceber que certos temas têm saído de círculos restritos do ativismo e ganhado maior popularidade, mesmo no limitado espaço de 280 caracteres de uma rede social, é a prova que uma boa dose de estardalhaço pode provocar mudanças.
Que façamos o barulho que for necessário! Nenhuma a menos!

Cristiana de Faria Cordeiro é juíza do TJRJ e mestre em saúde pública pela Fiocruz.



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