sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Mudança climática já pode estar afetando a safra de 2021 do Brasil

Leia, na sequência, artigo de autoria do engenheiro agrônomo e consultor em cafeicultura Jonas Leme Ferraresso.

Todos os anos, em meados de setembro, com cerca de 90% da safra de café brasileira concluída, traders, torrefadores, especuladores e players financeiros de todo o mundo começam a pensar nas projeções para a próxima safra.
Como o maior produtor mundial de café por mais de um século, a previsão de safra de café do Brasil pode ter uma influência importante no setor cafeeiro global, e os padrões climáticos sazonais podem levar a grandes oscilações no mercado.
No entanto, há fortes evidências que sugerem que alguns desses padrões climáticos não são meramente sazonais, mas parte de um padrão maior de mudança climática — que está ameaçando a safra de 2021 e talvez até 2022, 2023 e assim por diante.
As altas temperaturas, a estiagem e as chuvas instáveis já devem ter efeitos duradouros na produção de 2021, porém, há de se aaliar  alguns pontos em relação à safra de 2020.
O Brasil não tem mais um conselho centralizado específico para o café, como a Federação Nacional na Colômbia , mas isso não significa que os dados coletados de outras instituições nacionais não sejam úteis.
Uma das principais fontes de informações estatísticas para o setor cafeeiro do Brasil é a Conab , uma agência de abastecimento de alimentos atrelada ao Ministério da Agricultura. Seus dados são públicos, a metodologia é clara e eles fazem atualizações conforme a época de colheita se aproxima.
Por exemplo, em janeiro de 2020, a Conab estimou que a produção de café do país seria de 57,1 a 62,0 milhões de sacas. Outro levantamento, em setembro de 2020, indicou uma safra de 61,6 milhões de sacas de café colhidas. Assim, a estimativa da Conab foi notavelmente boa, considerando o total de terras cultivadas de café no Brasil, de 2,16 milhões de hectares, o que é quase equivalente ao tamanho total de El Salvador .
Infelizmente, muitas instituições nacionais e internacionais também costumam divulgar previsões de produção antecipadas com metodologias ou métodos estatísticos pouco claros. Isso não significa que suas intenções sejam ruins — ou mesmo que os dados sejam pouco críveis — mas tudo coletivamente deve ser visto com um olhar crítico.
De acordo com o último levantamento e relatório técnico da Conab, o Brasil colheu 47,4 milhões de sacas de arábica este ano, o que representa 76,9% do volume total. Acredita-se que essa seja a segunda maior safra de todos os tempos . Seguiu condições ótimas de desenvolvimento, sem chuva, o que também melhorou a qualidade média dos cafés brasileiros e o transporte desses grãos para os portos e armazéns.
No interior do país, há relatos regulares de armazéns cheios de sacas de café aguardando processamento ou exportação. Enquanto isso, segundo os últimos dados divulgados pelo Cecafé (Conselho dos Exportadores de Café do Brasil), o país remeteu ao exterior 3,8 milhões de sacas em setembro, um recorde para o mês .
Esse número provavelmente teria sido ainda maior se não fosse pela falta de contêineres e navios, uma vez que a logística de embarque foi interrompida em todo o mundo.
Resumindo, o Brasil produziu muito café nesta temporada.
Até o momento, os dados relativos à safra total de 2021 devem ser considerados como previsões ainda. No entanto, para os arábicas, as projeções podem ser feitas por meio de observação de campo, dados de estações meteorológicas nacionais e aspectos comportamentais das plantas.
Um fator fisiológico bem conhecido para o arábica é a natureza bianual da produção. Isso ocorre por causa da drenagem de nutrientes e carboidratos das plantas. Um ano, a planta pode dar mais frutos enquanto menos folhas e ramos crescem. No ano seguinte, esse padrão de crescimento é corrigido à medida que menos frutos se formam, enquanto mais folhas e ramos se desenvolvem.
No Brasil, devido a produtividade geralmente elevada por hectare, esse fenômeno é intensificado, o que significa que os volumes de redução de safra são intensificados em anos de baixa. Por exemplo, em 2018, foram colhidas 45,5 milhões de sacas de arábica. Em 2019, por sua vez, com uma redução de 27,8%, passou para 34,3 milhões.
Se aplicada essa redução de 2020 para 2021, o resultado seria a passagem das 47,5 milhões de sacas de arábica em 2020, para cerca de 34 milhões de sacas em 2021. No entanto, essa previsão não leva em consideração fatores importantes relacionados ao envelhecimento das plantas, lavouras recém plantadas ou renovação de plantações.
Além disso, existem muitos fatores climáticos que influenciarão a colheita de 2021, principalmente as previsões de altas temperaturas e chuvas esporádicas.
Para entender melhor os efeitos do clima nas safras futuras, uma breve lição de fisiologia do café arábica pode ser necessária. Nas condições encontradas na maioria das regiões produtoras brasileiras, a diferenciação das flores que serão responsáveis ??pela safra do ano seguinte ocorre entre fevereiro e junho, fazendo, por exemplo, com que a safra de 2021 comece a se concretizar no início de 2020. Quando a estação começa a mudar, os botões florais ficam dormentes até as primeiras chuvas em setembro, quando a floração começa a ocorrer.
Pelos dados meteorológicos do SISMET Cooxupé, este ano se observou bons volumes de chuva no período de diferenciação, mas, de abril a setembro, o volume de água ficou bem abaixo das médias históricas.
O início da estação chuvosa (setembro) normalmente quebra a dormência e desencadeia a floração. Em algumas áreas produtoras este ano as chuvas esparsas estimularam a floração. No entanto, junto com as temperaturas mais altas do que o normal , isso causou o aborto espontâneo da maioria desses botões florais. Isso ocorre quando, durante a floração, a temperaturas fica acima de 33° C e prejudicam o encontro do pólen com o ovo da flor, reduzindo, assim, o número de sementes formadas para 2021.
Mesmo que a fertilização aconteça, as sementes na formação precisarão de pelo menos 40 milímetros (1,57 polegadas) de chuva após o florescimento.
Atualmente, existem relatórios e dados de grandes cidades produtoras de café como Patrocínio (Minas Gerais), Franca (São Paulo) e Guaxupé (Minas Gerais) mostrando déficits hídricos tão severos que fizeram plantas secarem e o potencial de produção para 2021 já foi reduzido a quase zero.
Diante dessas condições, produtores que colheriam pequenos volumes no próximo ano podem decidir por podar suas lavouras para estimular a brotação de novos ramos, aceitando uma safra menor em 2021 seguida de uma rebatida para cima em 2022. De acordo com os mesmos dados, muitos municípios acumulam períoros sem chuvas (mais de dois milímetros) por mais de 170 dias.
Devido à falta de chuvas, outros efeitos indiretos podem afetar o volume de café que provavelmente será colhido em 2021. O clima seco e a alta temperatura aumentaram o risco de queima das lavouras de café . O número de folhas secas no solo é maior do que o normal e o ar com baixa umidade pode espalhar incêndios muito rapidamente, muitas vezes com eles saindo do controle.
Há casos de produtores que perderam mais de 20% de suas áreas plantadas por causa do fogo, além de perderem outras terras agrícolas e matas nativas protetoras.
Outro efeito colateral é o atraso no cronograma de fertilização do café. No Brasil, os produtores normalmente seguem cronogramas de manutenção de safra bem planejados, de setembro a março. Este ano, devido à falta de chuvas, a aplicação de fertilizantes foi adiada e esses atrasos podem afetar as plantas por duas temporadas.
A volatilidade do mercado de café já é bem conhecida dos produtores. Mas o país também enfrenta a desvalorização do real, fato que pode dificultar seriamente a compra de muitos insumos, como fertilizantes, combustíveis ou agroquímicos, que são cotados em dólares.
Normalmente, um aumento nos custos de insumos combinado com a baixa produtividade no ciclo bianual pode levar à diminuição dos investimentos dos cafeicultores. Novamente, isso pode afetar a saúde da planta e a produtividade nas duas ou três temporadas seguintes.
Somando-se a todas essas questões, está o fato de que o preço global do café permanece em níveis historicamente baixos, desestimulando ainda mais os produtores em investir no manejo da safra.
Em suma, o clima atual pode afetar negativamente a produção em todo o setor cafeeiro brasileiro nos próximos anos.
Infelizmente, muitos dos dados preliminares sugerem geralmente baixo potencial produtivo para o segmento cafeeiro em 2021. Os volumes ainda precisam ser estudados e levantados com maior precisão pela Conab, mas parece que as mudanças climáticas podem levar a danos irrecuperáveis, mesmo que as chuvas se normalizem em nos próximos dias .
O setor cafeeiro brasileiro e o segmento café globalmente deveriam estar atentos aos alertas que as mudanças climáticas apresentam. A última década viu mudanças nos ciclos climáticos dos cafezais brasileiros que levaram a chuvas inconsistentes, ondas de calor, granizo, geadas inesperadas, mudanças no comportamento das plantas, surtos de pragas e doenças fora da estação.
Esses riscos climáticos para a produção de café do Brasil já foram estudados e observados . O que é necessário em seguida é uma ação mais urgente para proteger não apenas a safra de 2021, mas as futuras safras de café em todo o mundo.

Fonte: Daily Coffee News



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