terça-feira, 8 de setembro de 2020

Brasil a caminho da “africanização financeira”

A pandemia de Covid-19 e a resposta do governo aos seus impactos socioeconômicos escancararam pela enésima vez a realidade de que as políticas públicas do Estado brasileiro são prioritariamente orientadas para os interesses da alta finança e seus beneficiários, os menos de 8% da população que têm recursos para investimentos financeiros mais sofisticados que a velha caderneta de poupança.
A tragédia nacional ficou explicitada pelos dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) sobre o desempenho da economia no primeiro semestre do ano.
No segundo trimestre, o PIB (Produto Interno Bruto) caiu 9,7% em comparação ao primeiro trimestre e nada menos que 11,4% diante do mesmo período de 2019, os maiores índices desde 1996, quando o IBGE iniciou as medições trimestrais. Entre os setores produtivos, o único a registrar uma ligeira marca positiva foi a agropecuária, com 0,4%, tendo a indústria despencado 12,3% (17,5% para a indústria de transformação) e os serviços, 9,7%.
Em paralelo, os níveis de desocupação são alarmantes. No final de julho, segundo o IBGE, havia 41 milhões de pessoas inativas, considerando os desempregados “oficiais” (13 milhões) e os que não estão procurando emprego (28 milhões).
“Na verdade, está tendo semana a semana uma queda contínua de população ocupada. As pessoas estão perdendo o emprego”, afirma a coordenadora de Trabalho e Rendimento do IBGE, Maria Lucia Vieira (UOL, 15/08/2020).
Desde março, a pandemia interrompeu as atividades de mais de 1,3 milhão de empresas, das quais cerca de 700 mil não voltarão a funcionar. A quase totalidade delas, 99%, é constituída por pequenas empresas com até 49 funcionários, grupo que responde por mais de 80% da oferta de empregos no País.
A dimensão da devastação se evidencia no fato de que o auxílio emergencial do governo superou os níveis de empregos formais com carteira assinada em 25 dos 27 estados brasileiros, chegando a mais de 65 milhões de pessoas, mais da metade da força de trabalho.
Por outro lado, um setor continua ganhando de goleada: atividades financeiras, seguros e serviços relacionados registraram um aumento de 0,8%. Parece pouco, mas o contraste é brutal e emblemático. Enquanto a economia real desaba, os grandes bancos continuam demonstrando desempenhos superlativos, a despeito de uma redução de 39,5% nos índices de lucros em relação aos recordes do ano passado. Ainda assim, o Itaú Unibanco, Bradesco, Santander e Banco do Brasil encerraram o primeiro semestre com R$ 25,8 bilhões de lucros combinados (Bradesco: R$ 6,9 bilhões; Itaú Unibanco: R$ 6,7 bilhões; BB: R$ 6,4 bilhões; Santander: R$ 5,8 bilhões).
De fato, os bancos se destacaram até mesmo no cenário internacional, ocupando quatro das cinco primeiras posições entre as empresas mais lucrativas na América Latina no mesmo período, a saber: 1) Bradesco; 2) Itaú Unibanco; 3) BB; 4) Vale; 5) Santander Brasil.
A rigor, isso não surpreende, devido à vasta hegemonia da “financeirização” sobre a economia real, ocorrida no último meio século, não por acaso, exacerbada nas regiões menos desenvolvidas do planeta. Isso é o que mostra um recente relatório do Centro Estratégico Latino-americano de Geopolítica (Celag), segundo o qual, no período 2015-18, o setor financeiro latino-americano foi o segundo mais rentável do mundo, atrás apenas do – africano! Os números: África: 2,6%; América Latina: 2,1%; Ásia: 1,4%; Europa: 0,9%; Canadá e EUA: 0,7% (La República, 31/08/2020).
Nesse quadro se insere a decisão do Conselho Monetário Nacional, de repassar ao Tesouro Nacional parte dos lucros do Banco Central, nada menos que R$ 325 bilhões, para assegurar o sacrossanto serviço da dívida pública, que tem sido de longe o melhor “investimento” no País, nas últimas décadas.
E a “intocabilidade” dos rentistas se manifesta de forma mais evidente com a bizarra decisão do juiz Leonardo Gradmasson Chaves, da 32ª Vara Cível do Rio de Janeiro, obrigando o portal Jornal GGN a suprimir uma série de reportagens sobre o banco BTG Pactual (16º na lista das empresas latino-americanas mais lucrativas), citando contratos suspeitos envolvendo o banco, inclusive, a aquisição da carteira de créditos duvidosos do Banco do Brasil por uma pequena fração do seu valor “de mercado” (Revista Fórum, 30/08/2020). Talvez, o fato de o ministro da Economia Paulo Guedes ter sido um dos fundadores do banco tenha influenciado a decisão do magistrado.
A propósito do “superministro”, a sua resposta à queda do PIB apenas ressaltou a sua notória dissonância cognitiva diante da realidade, insistindo na tentativa ilusionista de convencer o País sobre o acerto da sua política pró-rentista e antiprodutiva. Aproveitando o enorme desconhecimento dos princípios básicos da economia pela maioria dos brasileiros e a cobertura favorável da grande mídia,  ocorreu-lhe apenas oferecer uma explicação que beira o patético: Isso é impacto do raio que caiu em abril… o som de um passado distante. Nós humanos somos átomos que raciocinam. Economia não é uma ciência exata.
Como a velocidade da luz é diferente da velocidade do som, você vê um raio muito cedo e o som chega muito depois. É a mesma coisa com a economia… Chegou agora o som de uma queda inicial do PIB de 10%. Só que a realidade é outra. É um som de um passado distante. Como a luz das estrelas que nós vemos foram emitidas há bilhões de anos. O que você vê é um registro do passado. Foi esse som que chegou agora. (…)
Mais importante do que o resultado do PIB do segundo trimestre é observar que abril foi o piso e já há uma retomada em “V”. Todo mundo previa essa queda de 10% no segundo trimestre, mas esse é um som distante do impacto da pandemia lá atrás. O Brasil ficaria nessa queda se governo não tivesse aprovado medidas com o  Congresso. Com essas medidas, conseguimos criar uma volta em “V”, a economia está voltando em “V” (O Estado de S. Paulo, 01/09/2020).
Escrevendo no “Estadão” (01/09/2020), o economista José Luis Oreiro, professor da Universidade de Brasília (UnB), é categórico: (…) Cai definitivamente por terra a narrativa do ministro da Economia, Paulo Guedes, de que a pandemia do coronavírus abateu a economia brasileira quando esta iniciava um robusto processo de crescimento. Nada mais longe da verdade: a economia estava em franco processo de desaceleração antes da chegada do coronavírus. Dado o crescimento medíocre observado no período 2017-2019, a conclusão inescapável é que a tão agenda de reformas não tem tido sucesso no sentido de colocar o Brasil na rota do desenvolvimento econômico.
Em entrevista à CNN Brasil (01/09/2020), o economista Eduardo Giannetti da Fonseca, insuspeito de preconceitos ideológicos contra o governo, bateu na mesma tecla: “É fora da realidade dos fatos imaginar uma retomada em ‘V’da economia. A retomada em ‘V’ aconteceu depois da crise financeira de 2008. É provável que em 2021 a gente corra para recuperar o nível de atividade de 2020 pré-pandemia.”
Segundo ele: “Não sabemos qual vai ser a dinâmica do pós-pandemia. Ainda não sabemos o tempo da vacina. Não sabemos como a economia irá reagir quando forem retirados os estímulos que deixaram a economia funcionando durante 2020 e também não sabemos como investidores irão reagir depois do trauma. Vão ficar cautelosos? Vão se animar diante de cenário incerto? Muito difícil prever qual vai ser a reação agentes econômicos.”
A observação de Giannetti sobre as incertezas referentes à atitude dos investidores privados apenas reforça a linha de que qualquer esforço sério de recuperação da economia real terá que ser encabeçado por investimentos públicos guiados por uma orientação bastante diferente do pró-rentismo hegemônico, o que exigirá uma firme disposição de confrontação com o sistema financeiro. Qualquer atitude diferente disto implicará em que a alta finança improdutiva continuará se impondo sobre a economia real, com desdobramentos sociais e políticos imprevisíveis, que poderão levar o Brasil a destronar proximamente o continente africano nessa trágica disputa pelo título de nirvana bancário.

Fonte: Portal Bonifácio



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