quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Países em desenvolvimentos e a antiética dos testes clínicos

Frederico Rochaferreira

Na corrida por uma vacina contra a Covid-19, vários países em desenvolvimento incluindo Brasil, Índia e África do Sul, estão no radar dos testes clínicos e alguns deles já começaram.  No último dia 20, foi a vez do Brasil começar os testes com a vacina chinesa contra a Covid-19 conduzido pelo Instituto Butantan, em São Paulo. Em torno de 1 milhão de candidatos se apresentaram como voluntários.[1]
Esse início de testes é a fase III, em que milhares de indivíduos recebem ou a vacina experimental ou um placebo, para posteriormente se avaliar a segurança e eficácia da vacina[2]. Costumeiramente os países em desenvolvimento e grupos minoritários são o campo fértil para esses ensaios clínicos. Segundo a Dra. Harriet Washington, especialista em ética médica e autora do livro Medical Apartheid, ganhador do National Book Critics Circle Award, em 2007, em muitos países, os testes clínicos com uso de placebo são desaprovados, então se recorre aos países em desenvolvimento, onde o padrão de atendimento em saúde é precário e as regras também. “Ensaios clínicos que não são permitidos por exemplo, aqui nos EUA, já que causaria um furor ético, podem ser legalmente conduzidos no mundo em desenvolvimento,” disse. Para a Dra. Harriet Washington, é preciso ter um mínimo de inteligência para suspeitar.[3]
A preocupação ética com esses ensaios experimentais sempre passaram ao largo das discussões nas sociedades menos desenvolvidas, seja pela submissão de seus governos, seja como disse a Dra. Harriet, “por um mínimo de inteligência para suspeitar” por parte da população, mesmo quando declarações chocantes chegam ao conhecimento público, como aconteceu recentemente na França, quando dois médico respeitados, o Dr. Jean-Paul Mira, chefe do departamento de terapia intensiva do Hospital Cochin, em Paris e o Dr. Camille Locht, diretor de pesquisa do Instituto Nacional Francês de Saúde e Pesquisa Médica, classificado como a segunda melhor instituição de pesquisa do mundo no setor de saúde, levantaram a ideia em um programa de televisão, de que as novas vacinas contra Covid-19 deveriam ser testadas primeiro nas populações africanas empobrecidas. Jean-Paul Mira, chegou a comparar o desamparo dos africanos a prostitutas, que foram o foco de estudos anteriores sobre a AIDS.[4]
A declaração dos médicos franceses foi prontamente condenada pelo Diretor-Geral da Organização Mundial da Saúde, o etíope Tedros Adhanom Ghebreyesus: “O comentário de alguns cientistas que disseram que o campo de teste para as novas vacinas deveria ser na África, me deixou chocado. Isso ocorre numa altura em que eu disse que precisávamos de solidariedade, este tipo de comentário racista não ajuda, vai contra a solidariedade. A África não pode e não será um campo de testes para vacinas.”[5]
Nos EUA há um esforço para incluir negros e latinos nos testes da vacina contra a Covid-19. O Dr. Richard Baron, executivo-chefe do Conselho Americano de Medicina Interna, escreveu uma carta aberta ao governo norte-americano para a necessidade de convencer e incluir essa parcela da população no programa de testes da vacina. “Acreditamos que é totalmente previsível que muitos americanos, especialmente negros, latinos e indígenas, não tomem uma vacina, por mais segura e cientificamente comprovada que seja, se não confiarem no processo e nas pessoas que a produziram”.[6]
E certamente eles não confiam, primeiro, por estarem à margem dos serviços de saúde de qualidade e os negros em particular, também pelas experiências antiéticas do passado, já que trazem viva na memória as experimentação antiéticas que sofreram, desde as cirurgias experimentais realizadas sem anestesia em mulheres negras escravizadas,[7] até a apropriação indevida de tecido cervical de Henrietta Lacks[8] ao infame estudo de sífilis de Tuskegee,[9] experimentações que forjaram uma compreensível desconfiança da população negra nas pesquisas clínicas nos EUA.
O argumento do Dr. Richard Baron de que negros, latinos e indígenas são um grupo de risco de acordo com o número de mortes, é fato, mas também é fato que as mortes de Covid-19 dessas populações são agravadas pela segregação, já que esses grupos estão à margem dos melhores serviços de saúde e quando se trata de pandemia, todos são população de risco.[10][1]
Sabemos que as populações dos países em desenvolvimento e os grupos minoritários raciais e étnicos existentes nos países desenvolvidos, são um campo fértil para testes clínicos antiéticos, por isso, é preciso refletir e perguntar sempre, até quando?

 
Frederico Rochaferreira é escritor e especialista em Reabilitação pelo Hospital Albert Einstein, membro da Oxford Philosophical Society.


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