quarta-feira, 1 de julho de 2020

Sindicato prepara ação para acelerar inauguração do CDP de Álvaro de Carvalho

Já são seis anos desde que o governo de São Paulo anunciou, com pompas, que a cidade de Álvaro de Carvalho receberia a sua segunda unidade prisional ligada à Secretaria de Administração Penitenciária (SAP). Seis anos de promessas, anúncios, idas e vindas e muita penúria para os servidores penitenciários que esperam pela transferência.
O futuro Centro de Detenção Provisória (CDP), projetado para receber 823 sentenciados, avivou entre aqueles com residência no município de pouco mais de 5 mil habitantes a esperança de que, finalmente, poderiam voltar para suas casas e deixar para trás as dificuldades de adaptação.
Porém, o que poderia ser um alento para a difícil vida dos profissionais que lidam diariamente com o sistema penitenciário, se tornou uma novela de enredo triste, sem previsão de fim. É o que contou ao Sifuspesp (Sindicato dos Funcionários do Sistema Prisional do Estado de São Paulo) uma policial penal lotada na Penitenciária Feminina da Capital (PFC) que, todos os meses, se desdobra entre os longos plantões na unidade e as longas viagens de 430 quilômetros para visitar a família.
“As listas prioritárias de transferências regionais (LPTR) estão rodando. Por que é que não é logo inaugurada a unidade?” questiona a servidora de 39 anos, que lembra que, desde fevereiro, o CDP de Álvaro de Carvalho está pronto para funcionar e com seus diretores já trabalhando, porém sem receber nenhum detento. Após muita especulação, a SAP chegou a cogitar a inauguração para o dia 03 de março, mas o anúncio acabou não confirmado.
Sem se identificar por temer ficar de fora de uma futura transferência - que aguarda desde que começou a trabalhar na SAP, em 2014 - ela explica que, em virtude da necessidade de fazer as trocas com as colegas, trabalha muitas horas além do que seria o recomendado, se alimentando e dormindo mal, reduzindo sua imunidade e correndo riscos de saúde, sobretudo durante a pandemia do coronavírus, em que permanece trabalhando.
Quando finalmente consegue emendar os dias que lhe possibilitarão a aguardada visita ao filho e aos pais, a sensação de alívio por encontrar seus entes queridos é substituída pelo temor de levar junto consigo a covid-19. “Sofremos todos os dias só de pensar na família. Primeiro pela distância, agora com o perigo dessa doença”, lamenta.
Enquanto parte da linha de frente de trabalhadores que seguem atuando durante a quarentena desde março, a policial penal também revela que o grande número de plantões seguidos que precisa fazer a obriga a ir a hospitais acompanhar o atendimento a detentas, o que aumenta os riscos de contágio. “Nós vivemos no limite, pensando se vamos ir para casa ou não para não transportar a doença, mas são as pessoas que amamos, é o nosso lar, e precisamos voltar. Uma decisão muito difícil”, revela.
Além de ressaltar que a proximidade com seus parentes e a ida para o interior traria mais qualidade de vida para si e de tranquilidade e estrutura para exercer sua função na SAP, a policial penal lembra que também seria fundamental poder estar em uma casa própria, ao lado dos seus familiares, já que para quem vive em São Paulo a dura realidade é ter de dividir espaço com colegas de farda que, apesar de muito queridos, estão todos juntos principalmente para conseguir pagar as contas caras que a capital impõe.
Tendo trabalhado também em Mogi Guaçu e na Penitenciária Feminina de Santana desde que entrou no sistema, a servidora chegou a desmontar uma república que mantinha ao lado de outras nove colegas em fevereiro, quando se aventou a possibilidade de que o CDP de Álvaro de Carvalho finalmente seria inaugurado. “Vendemos móveis, eletrodomésticos e entregamos a casa. E aí veio a decepção devido à não abertura da unidade, o que nos obrigou a procurar abrigo em casas de outros amigos temporariamente”, esclarece.
Para a policial penal, muitas coisas aconteceram ao longo dos últimos anos que podem estar ligadas à demora para que a unidade ficasse pronta e, posteriormente, passasse a receber os trabalhadores e detentos. “Houve mudanças no governo, até fatores climáticos alegou-se que atrapalharam, e agora estamos em meio a uma pandemia que a meu ver e no de muitos colegas torna a inauguração uma medida essencial”, explica.
Em 21 de fevereiro, a SAP emitiu um comunicado em que havia suspendido a inauguração, prevista para março, “devido às fortes chuvas ocorridas em 10 de fevereiro”, em que houve deslizamento de taludes no terreno, o que provocou assoreamento em várias áreas do CDP, “sendo necessário o desligamento e retirada de equipamentos para que não fossem danificados”.
Em nota enviada ao Sindicato dos Funcionários do Sistema Prisional do Estado de São Paulo em 12 de março, portanto antes do início da quarentena em São Paulo, a Secretaria havia informado que a abertura seria remarcada para maio, o que novamente não se confirmou, agora em virtude da pandemia do coronavírus.
Diante do grande número de idas e vindas na inauguração do CDP de Álvaro de Carvalho, o Sindicato segue pressionando a SAP para que, mesmo frente aos desafios impostos pelo contágio da doença, seria possível fazer a inauguração e beneficiar todos os que atuam e cumprem pena no sistema.
Na próxima sexta-feira, 03 de julho, às 10 horas, o Sindicato dos Funcionários do Sistema Prisional do Estado de São Paulo participa de um ato público em frente à unidade com o objetivo de exigir a inauguração imediata e a transferência dos servidores penitenciários que aguardam para iniciar o trabalho no Centro de Detenção Provisória.

Fonte: Sindicato dos Funcionários do Sistema Prisional do Estado de São Paulo


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