segunda-feira, 20 de julho de 2020

Crise angolana ameaça ambições globais da Igreja Universal

Mathias Alencastro

Acusações de invasões a templos e agressões a pastores brasileiros em Angola invadiram os canais de informação da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD).
Jair Bolsonaro manifestou apreensão, e um grupo de senadores anunciou uma missão para acompanhar os acontecimentos do outro lado do Atlântico Sul.
Porém, como me alertou um angolano que acompanha o caso, na história do caçador, o lobo passa sempre por um animal selvagem.
Instalada em Angola há décadas, a IURD cresceu exponencialmente durante os anos 2000, quando os pastores conquistaram as camadas populares que cicatrizavam as feridas de quase meio século de violência contínua.
A partir de 2015, perante o colapso da indústria petrolífera, a igreja começou a limitar os investimentos em Angola.
A austeridade imposta por uma instituição conhecida localmente por sua exuberância criou um clima propício para a revolta dos bispos angolanos por mais poder e direitos.
Estamos perante a história de uma disputa pelo dízimo de desesperados num cenário digno de um filme de Paul Thomas Anderson, composto por templos mal pintados, trovas baianas e quinquilharia chinesa.
Cabe lembrar que o Brasil não é um império colonial, e a IURD não pode evangelizar os crentes angolanos como os portugueses cristianizavam o reino do Congo.
A IURD é uma instituição com domicílio em Angola, país soberano. Porém, nos dias de hoje, a realidade é apenas um detalhe para o Itamaraty.
Ernesto Araújo e seus devotos usaram as agressões contra brasileiros como pretexto para tentar salvar o negócio dos seus arrais religiosos.
Infelizmente para os nossos cruzados, é improvável que os angolanos cedam à pressão. Afinal, a IURD nunca foi vista com bons olhos pela elite do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), o partido no poder.
Treinado pelos paranoicos agentes da Alemanha Oriental, o serviço de segurança do Estado desconfia de entidades que manipulam as massas, ainda mais quando controladas do exterior.
Em 2013, o governo de José Eduardo dos Santos havia ensaiado um rompimento com a IURD, mas recuou diante dos protestos dos fiéis.
De lá para cá, o Brasil passou de potência emergente a negacionista doente. Bastou o governo angolano deixar prosperar a dissidência interna para resolver o problema.
O episódio trará consequências para a IURD. Angola é muito mais que uma provedora de generosas remessas em dólares nos tempos áureos.
É o campo de treinamento onde Marcelo Crivella e outros bispos cumpriram parte da sua formação e a base de lançamento de suas duas dezenas de operações no continente africano.
A emancipação dos bispos angolanos cria um precedente ameaçador para as ambições globais da maior multinacional da fé brasileira.
Numa ironia que marcará a história das relações entre religião e política, a IURD alçou Jair Bolsonaro ao pedestal só para ver o seu império derreter.

Mathias Alencastro é pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento e doutor em ciência política pela Universidade de Oxford (Inglaterra).



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