quarta-feira, 1 de julho de 2020

A dificuldade dos professores em “explicar 2020”

Hyago Átilla Sousa dos Santos

Estamos, sem dúvidas, submersos em um caldeirão de informações borbulhantes. É comum vermos, nas redes sociais – e também fora delas -, pessoas descrevendo a angústia que sentem não somente em decorrência da pandemia do novo coronavírus, mas também em relação à atual crise política e às inúmeras (in)certezas que permeiam a incessante e crescente velocidade de divulgação de notícias. Além disso, muitas pessoas (especialmente as que estão ligadas a meios acadêmicos) manifestam uma grande preocupação em relação às formas com que a ciência, a comunicação social, a história e a própria noção de verdade vêm sendo tratadas.
O negacionismo histórico, a indústria das fake news, o descarado saudosismo fascista e o “enquadramento ideológico” como forma de descreditar as produções científicas emergem sob a roupagem do direito à liberdade de expressão. Há, inclusive, uma curiosa apropriação, especialmente da família Bolsonaro, da palavra “narrativa” como forma de relativização da verdade. Se tornou evidente, de fato, que vivemos um período em que os usos do conceito de narrativa se justificam por padrões axiológicos que, consuetudinariamente, se tornam parasitários nas esferas política e judiciária – mesmo não sendo algo inédito em nossa história.
Mesmo considerando essencial às emoções atuais, não busco, todavia, dedicar essa pequena reflexão à discussão sobre como esses aspectos de relativização da verdade impactam o campo judiciário. E não sendo totalmente desconexo a essa temática, nosso questionamento gira em torno de uma indagação específica: nós, professores e cientistas, realmente devemos nos dedicar a formular prognósticos ou às futuras “formas de explicar 2020”?
Não nego, claro, que o método é constantemente repensado em acordo com as transformações que a ciência e a prática docente sofrem com o tempo. O que busco, na verdade, é pensar sobre as dificuldades que encontramos na atualidade em definir mecanismos de ação educativa, informacional e de combate ao negacionismo e formas de apropriação de uma “verdade histórica”.
É fato que, independentemente das intencionalidades de quem escreve, o caráter de verdade do texto ou legitimidade da formulação argumentativa deve se assentar sobre fontes bem delineadas. Esse é o ponto principal. É por esse motivo que é comum pensarmos nos grandes veículos de impressa como “comprometidos com a verdade”. O problema é que, atualmente, outros canais de mass media vêm ganhando forte projeção sobre a opinião pública, como YouTube, aplicativos de mensagens instantâneas, podcasts, redes sociais etc. Esses veículos midiáticos são utilizados para diversos fins e, entre os mais “efervescentes”, vemos os de discussão política.
A política sempre foi discutida e vivida cotidianamente pelos povos. Entretanto, não é muito antigo o interesse sociológico da população sobre esse campo, especialmente pondo em evidência a sua relação com a história e demais campos da ciência (em aceitação ou negação). Da melhor forma ou não, os “muros da academia” estão sendo quebrados, mesmo que de fora para dentro, e isso vem impactando as formas com que a ciência dialoga com a sociedade. O que resta, agora, é corrermos atrás do tempo perdido – o que, infelizmente, só foi percebido por muitos após o início de uma pandemia que nos forçou a enxergar a importância, os riscos e as responsabilidades do uso de ferramentas virtuais.
Nos referindo à História, especificamente, encontramos vários canais, autodenominados de direita ou esquerda, que se dedicam a “pensar” sobre esse campo. Os usos do passado pela esfera midiática pública não é novidade, mas vale ressaltar que eles hoje vêm passando por um processo acelerado e “acalorado”. Como afirma François Dosse[2], o jornalismo e o mass media constituem a indissociabilidade entre a informação narrada e o acontecimento descrito. Em contraste com a historiografia, o público não-acadêmico se apropria dos acontecimentos e produz uma história sintética[3], global, pública. Hoje, entretanto, emerge, para além da velha disputa entre historiógrafos e jornalistas sobre a produção histórica, os chamados influencers que, aos poucos, adentram nesse campo de disputas pela “verdade”.
O velho problema do diálogo entre a ciência histórica e os veículos midiáticos poderia ser solucionado? Quem, na verdade, pode contar a História?
No dia 18 de Fevereiro de 2020, o Senado aprovou com unanimidade, após a aprovação popular, o PLS 368/2009, de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS), que trata sobre a regulamentação da profissão de historiador, luta que vem sendo travada desde os anos 1960. No dia 27 de Abril de 2020, o poder executivo vetou a proposta com a argumentação de que tal projeto “restringe ‘o livre exercício profissional’ e fere o princípio constitucional que determina ser livre ‘a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”.[4]
Não é de caráter implícito a rejeição que o atual governo tem sobre a legitimidade das ciências, ainda mais sobre reconhecimento do fazer historiográfico como dotado de conceitos e métodos específicos, científicos. Hoje vemos a importância da regulamentação da profissão do historiador não somente como forma de viabilizar a inserção desses profissionais no mercado de trabalho, mas de reconhecer que a historiografia é, além de uma “construção narrativa”, uma ciência comprometida em dialogar com os saberes empíricos das fontes e diferentes usos do passado. O historiador é visto, sem dúvidas, como um sujeito perigoso.
O mais angustiante, acima de tudo, é que não encontramos, nesse momento, um “Manual de Combate ao Negacionismo e aos Abusos do Governo Bolsonaro” e nem chegamos a um consenso sobre como construir tal luta. Mesmo dispostos a lutar nas ruas contra o fascismo e em prol do Brasil e das causas sociais, nos deparamos com a responsabilidade de lidar com uma pandemia que vem sendo absurdamente negligenciada pelo governo.
Outro aspecto dessa angústia se encontra na indignação em torno da falta que faz a “unificação da esquerda”. Estabelecer um “fator unificador” é, além dos interesses entre partidos políticos, uma das problemáticas que encontramos atualmente, principalmente por vermos, em muitos casos, a insuficiência de uma possível aliança entre “luta de classes” e “multiculturalismo” ou “filosofias da diferença”.  Não é impossível construir um diálogo entre esses elementos, levando em conta que um não pode ser considerado mais importante que o outro, mas é necessário reconhecermos que não podemos mais tratar o povo como uma massa guiada por um líder mitológico à la Bacurau – já vimos que essas experiências de “estrelismo” não são nada proveitosas.
Precisamos, mais que nunca, fortalecer os mecanismos de diálogo entre cientistas e a população não-acadêmica, reconhecendo o povo como sujeitos atuantes na história. Nosso problema não é somente moral ou político, mas de linguagem. Como afirma Joel Rufino dos Santos[5] , já está falida a imagem do intelectual compassivo, pedante e classista que lidera o povo em direção ao horizonte glorioso; na verdade, o próprio povo produz seus intelectuais e cabe a nós construirmos um diálogo com eles.
Ressalto, então, a importância de pensarmos em ocupar esses novos espaços e largarmos o conservadorismo desconfiado da academia. Não podemos nos render a argumentos utilitaristas e produtivistas como “2020 é um ano perdido”. Pessoas estão morrendo. O problema se trata, hoje, mais de pensarmos formas de construir diálogo, intercambiar saberes e tentarmos resolver problemas do presente do que lamentarmos sobre as formas como trataremos 2020 no futuro. Deixa o futuro para o futuro.

[1] ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. 7ª Ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1970, p. 49.
[2] DOSSE, François. Renascimento do acontecimento: um desafio para o historiador entre Esfinge e Fênix. São Paulo: Editora Unesp, 2013.
[3] SARLO, Beatriz. Tempo passado: cultura da memória e guinada subjetiva. São Paulo: Companhia das Letras; Belo Horizonte: UFMG, 2007.
[4] AGÊNCIA SENADO. Planalto veta a regulamentação da profissão de historiador. Publicado em 27 de Abril de 2020. Acessado em 20 de Junho de 2020, às 15h:00min. Disponível em <https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2020/04/27/planalto-veta-regulamentacao-da-profissao-de-historiador>.
[5] SANTOS, Joel Rufino dos. Como podem os intelectuais trabalhar para os pobres. São Paulo: Global, 2004.

Hyago Átilla Sousa dos Santos é graduado em História pela Universidade Regional do Cariri. Atualmente é mestrando em História pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Pernambuco – PPGH/UFPE. 


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