quinta-feira, 28 de maio de 2020

Analistas veem uso de robôs e grupos de WhatsApp na rede de apoio ao governo

Em meio à crise provocada pelo novo coronavírus, a militância bolsonarista nas redes sociais tem lançado mão da mesma tática de atuação usada desde o período da disputa eleitoral de 2018, com ataques orquestrados contra adversários no Twitter, uso de robôs e criação de grupos de WhatsApp para difundir informações falsas.
Apesar da atuação constante desde a posse, há a constatação de que a base de Jair Bolsonaro (sem partido) vem caindo sem, porém, que esse grupo perca a capacidade de pautar o debate que se destaca no mundo virtual.
Um estudo amostral da consultoria Arquimedes feito após a manifestação antidemocracia de domingo em frente ao QG do Exército em Brasília mostrou que, após participar do ato, o presidente viu o seu apoio nas redes sociais cair. Numa análise de 38 mil menções, foi identificado o percentual de 30% de apoio a Bolsonaro. “Não há, fora do isolado grupo bolsonarista, apoio ao presidente”, aponta o relatório da empresa.
Na última sexta-feira, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), sofreu o maior ataque até hoje no Twitter. A hasthag #ForaMaia ficou em primeiro lugar na lista de assuntos mais comentados da plataforma no Brasil.
A ofensiva ocorreu após Bolsonaro fazer, em entrevista à CNN Brasil, na quinta-feira, críticas contra Maia chegando a dizer que ele quer “enfiar a faca no governo”.
O presidente da Câmara costuma ser alvo de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro no mundo virtual desde o ano passado, mas os ataques de sexta-feira superaram os anteriores. Há semanas, tem havido uma série de troca de acusações tanto por parte de Bolsonaro contra Maia, como vice-versa. As discussões têm ajudado a alimentar os debates nas redes sociais.
"Foi o maior ataque de todos os tempos (dos bolsonaristas) contra a figura dele (Maia)", afirma David Nemer, professor do departamento de estudos de mídia da Universidade da Virgínia.
Nemer identificou cerca de 1,5 milhão de menções ao presidente da Câmara. Dentro desse grupo, o professor fez uma análise amostral de 50 mil postagens e afirma ter identificado 11 contas robôs. Os perfis chegam a fazer 50 retuítes num período de dez segundos, o que é humanamente impossível, avalia a Arquimedes.
Além dos robôs, foram identificadas contas falsas ou com características de atuação profissional. Esses perfis fazem apenas postagens em favor de Bolsonaro basicamente do mesmo teor quase ao mesmo tempo.
Nemer acredita que a ofensiva no Twitter contra Maia faz parte de uma estratégia conjunta com a entrevista concedida pelo presidente contra Maia:
"A entrevista e os ataques no Twitter são estrategicamente coordenados. É uma tática rotineira do bolsonarismo eleger um inimigo. Na construção do inimigo, você consegue manter a sua base unida e motivada para lutar por você."
Relatório da consultoria Arquimedes identificou mais de 1,3 milhão de menções da hasthag #ForaMaia. “A ação, apesar de barulhenta nas redes, tem se mostrado isolada e sem tração com o debate público, ficando restrita a um grupo de perfis de apoiadores do presidente Bolsonaro”, afirma o relatório.
Pablo Ortellado, professor da USP e coordenador do Monitor de Debate Político no Meio Digital, afirma que os bolsonaristas atuam de forma diferente em cada plataforma:
"No Twitter, há um ataque coordenado. No WhatsApp, é campanha de desinformação pesada. No YouTube, há muito uso de imagens oficiais do presidente. Canais bolsonaristas do YouTube têm quatro vezes mais visualização do que outros canais políticos."
Ortellado relata ainda ter recebido informação de três pessoas diferentes que afirmam ter sido acrescentadas recentemente em grupos de WhatsApp bolsonaristas voltados para informações sobre o novo coronavírus:
"Como estudo isso, as pessoas me procuram. Foi feito esse relato de três pessoas com backgrounds muito diferentes."
Ainda segundo o professor, esse tipo de mobilização exige recursos, porque é preciso comprar o cadastro das pessoas para serem incluídas no grupo e pagar alguém para alimentar as mensagens.
"Essa estratégia foi usada na eleição e aparentemente reativada. Isso só ocorreu na eleição porque é muito caro manter. Entre as informações disseminadas nesse tipo de grupo, está a de que os hospitais estão vazios e que o vírus é uma artimanha criada por chineses."
Os assuntos são abordados em áudio, textos e vídeos. Ortellado faz monitoramentos diários de grupos bolsonaristas:
"Constatei três coisas no meu monitoramento (desta segunda-feira): os governadores estariam inflando os números de doentes, a cloroquina seria a salvação e os governadores seriam os responsáveis pelo coronavírus porque incentivaram o carnaval."

Fonte: O Globo


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