sexta-feira, 24 de abril de 2020

A Síndrome de São Tomé: uma patologia social e política

Marcos Vinícius Gontijo 

Diante da afirmação da ressureição de Jesus Cristo, o apóstolo Tomé, cético, duvidou e disse o que ficou resumido nestas poucas palavras: “ver para crer”. Passada uma semana, Tomé, aquele que queria não só ver, como também tocar para crer, ouviu do próprio Cristo ressuscitado: “Porque me vista, creste? Bem-aventurados os que não viram e cream.” (Jo. 20:20-29) Jesus de Nazaré aproveita nesta passagem o ensejo disposto pelo ceticismo de seu apóstolo para reafirmar o mistério da fé: a crença a despeito da ausência de provas ou da experiência individual. Mas, se explorarmos mais um pouco o excerto, tal crença ou a fé necessitaria apenas de um único e indispensável fator: a palavra. Em especial, a palavra sagrada. Cristo, portanto, fez valer a sua cajadada, enfatizava a importância da fé ao mesmo tempo em que reafirmava o caráter sagrado da palavra. Bom, de certa forma não seria assim até os dias de hoje? Como bem sabemos, a dimensão sacra da palavra escrita tem como seu principal pilar o fundamento, quando tratamos, ao menos, da cultura judaico-cristã. Não é mera coincidência que se utiliza formalmente a expressão “[…] é verdade e dou fé” para selar contratos, testemunhos, declarações e afins. É subentendendo a sacralidade da palavra escrita, como base de nossas leis, contratos e conhecimento, que contestamos alguém com a célebre pergunta: “onde você leu isso?”, ao contrário de “onde você viu” ou “onde você ouviu”.
Embora eu não seja um sujeito religioso, frustrando sobremaneira o meu histórico familiar, reconheço e admiro a riqueza dos textos bíblicos, tão polissêmicos e contundentes acerca da diversidade da experiência humana, antes e depois da consolidação das estruturas civilizatórias, penso eu.
Diante da atual conjuntura, que, sem sombra de dúvidas, marcou a década passada e marcará também esta que se faz presente, pego-me frequentemente refletindo sobre o tom cético e contestatório do apóstolo Tomé. Este que estava equivocado ao duvidar de seus companheiros e que hoje inspira alguns a dizerem com as bocas cheias “só creio vendo”. Distinções sejam feitas, parece-me que Tomé, atualmente, voltaria a se equivocar se questionasse o testemunho científico sobre aquilo que também não poderia ver.
Não deixa de ser irônico, entretanto, que após o conflito binômico há muito ultrapassado entre ciência e religião — um tanto quanto falacioso até, contradizendo o que o senso comum afirma sobre iluministas serem ateus, por exemplo —, o discurso científico tenha perdido dentre os incautos a credibilidade e que necessite, para nossa própria sobrevivência e bem-estar, de fé. Não uma fé que dispense a exigência do método, o rigor, a experimentação e a apresentação de provas concretas na produção do conhecimento, senão uma fé que emane do autorreconhecimento da própria ignorância como não domínio de um determinado assunto ou desconhecimento de um campo específico e, ao mesmo tempo, do reconhecimento das capacidades e autoridade alheias. Uma fé que nutra a confiança em função dos dados e dos fatos apresentados e analisados por quem possui o know how, a técnica e que compartilhe e participe da intelligentsia para tanto.
Todavia, não é o que ocorre, não nesse momento, pelo menos. Tampouco é algo novo, pelo contrário, é algo que vem acontecendo há mais tempo e com certa frequência. Porém, dessa vez, atingiu com força singular outras áreas de conhecimento, e, pior, em face de um problema que demanda urgência e união em seu enfrentamento. Um problema que não é visível a olho nu, como a condição estrutural da desigualdade social, cujo denominador comum no Brasil são as relações sociais desdobradas da discriminação racial, que remonta ao período colonial e ao século XIX — também negadas, aliás. É um problema que, no entanto, pode ser visto com o auxílio de algum microscópio, cujas características eu desconheço, pois eu não possuo, exatamente, o know how, em outras palavras, o conhecimento técnico e científico. Ou seja, é trabalho e área de pessoas que dirão por mim, para a minha sorte, obrigado.
Para nossa surpresa, ao contrário do que nosso otimismo indicava a princípio, o desafio imposto pela pandemia demonstrou-se também vulnerável aos nossos males subterrâneos que vieram à tona desde 2013. A partir de tal data, o conjunto de circunstâncias que compõem o que chamo aqui de Síndrome de São Tomé, vieram em uma escalada que a esquerda ou os grupos mais moderados do nosso espectro político não conseguiram frear: o aprofundamento da crise política e da crise econômica. Nestas presentes circunstâncias, ambas somadas à crise da saúde, que nos próximos meses, pelo andar da carruagem, com certeza se consolidará, criam esse cenário completamente absurdo, carregado de ares distópicos.
Olhando para esse balaio de gato, no qual a vida, não importa qual, se nova ou se velha, está em grande risco, a crise política em que vivemos, como uma hidra, revela mais uma de suas cabeças, enquanto o corpo, de fato, é um só: a completa deslegitimação da política e do conhecimento como saída ou meio de solucionarmos os nossos problemas como sociedade. Em uma conjuntura na qual o inimigo comum é explícito, autoridades do próprio governo, acompanhadas de apoiadores, incentivam a população a desacreditar das instituições, dos técnicos, dos pesquisadores e dos cientistas, nacionais e estrangeiros! O modus operandi do anti-eu reproduzido pela figura maior do Poder Executivo é reatualizado, mais uma vez, por meio da ambiguidade das informações — divulgadas pelo próprio governo! —, alimentando o imaginário conspiracionista e como se tudo tratasse apenas de mentiras, perseguições ou alarmismo. Para nosso espanto, parte preocupante da população concorda e repete o equívoco de Tomé. Não somente por que furou a quarentena, mas porque não atende aos cuidados preventivos básicos, os quais vêm sendo anunciados incansavelmente durante todo o último mês. O que se vê é uma retomada da rotina, recheada com a ausência ou mal uso de máscaras, a não restrição da entrada de clientes no interior de estabelecimentos, a falta de álcool ou a permissão de que filas se formem ao bel-prazer da clientela. Sem falar na sandice das carreatas à procura de saídas tenebrosas e que atentam diretamente contra a Constituição e a democracia.
O descrédito do conhecimento rigoroso e metódico, realizado em laboratórios e instituições de produção e divulgação científica, em conjunto com o negacionismo virulento que inviabiliza a política como solução racional e verídica dos problemas encontrados, mergulham-nos em um cenário no qual a ação positiva fica cada vez mais escassa e difícil, restando apenas questionamentos e dúvidas perante o profundo desmonte do estado de bem-estar social. Como a política, compreendida como mecanismo coletivo e plural, recobrará a sua capacidade de conduzir a coexistência democrática da sociedade? Quais parâmetros e formas saudáveis de utilização das redes sociais e das novas mídias desenvolveremos? Pois é inquestionável a importância delas na feitura desse novelo de desinformação. Por quais caminhos teremos de trilhar até que o relativismo e a autoverdade sejam soterrados com a verdade e a comprovação científica e racional?
O que encontramos nesse panorama de quarentena, de um lado, é uma janela escancarada para que o projeto neoliberal, que depende da fragilização do trabalhador, continue à toda, sobretudo com a impossibilidade dos movimentos sociais tomarem às ruas. Do outro, a família, encabeçada pelo constrangedor capitão, trabalhando para aprofundar ainda mais a desmoralização das instituições democráticas. Nessa altura, após o fiasco dos pronunciamentos e de tanto disse-me-disse da figura que ocupa a presidência, já nos perguntamos cheios de angústia: “ninguém fará nada?”
No seio desse quiproquó a imagem do sujeito presidente, tão mitológico quanto uma quimera, parece se manter firme. O sujeito de fala atarracada, de raciocínio abobado e perigoso pelo falso tom burlesco, e de porte físico tão atlético quanto uma lordose aguda permite alguém ter, continua inconteste mentindo e desmentindo aos outros e a si mesmo, como se tivesse, como um messias, o dom da clarividência e da sorte da verdade absoluta. A essa altura seria desnecessário salientar as dimensões protofascistas de tal figura, porém não o é. O esforço de desinformação, calcado no desencontro das informações promovidas pelo próprio governo e na demonização do jornalismo; o flerte com um suposto espírito patriótico de traços maniqueístas, como se houvesse brasileiros e brasileiros; o negacionismo histórico e a escamoteação e discriminação das diferenças que formam a nossa sociedade, criando a ilusão de uma unidade homogênea que nutre esta noção pobre de nação e, por fim, a invenção de um inimigo-comum interno — e não é ele o vírus —, são características inquestionáveis da atual e funesta forma de governar da figura presidencial.
Nesse meio tempo, a base populacional que sustenta esse ser — cuja natureza mitológica, só pode estar ligada à Caixa de Pandora — como Tomé, deseja tocar as chagas para crer. Se satisfeito esse desejo for, sem dúvida tais úlceras superarão a profundidade dos cravos de Cristo. É mais do que urgente que medidas duras e coordenadas, entre estados e governo federal, sejam tomadas, bem como a ação do Supremo Tribunal Federal em fazer valer a Constituição em defesa das instituições democráticas e, sobretudo, da vida tão ameaçada nesse momento. Caso contrário, a população pagará para ver, e pagará caro, se é que o preço da vida dos pais, avós, filhos e netos têm preço. Tenho certeza de que não.

Marcos Vinícius Gontijo é pesquisador e historiador, mestre em História pela Universidade Federal de Ouro Preto.


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