quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Epidemias em tempos de fake news

Maíra Fedatto

Autoridade máxima de saúde internacional, a Organização Mundial da Saúde (OMS) vem enfrentando uma crise de legitimidade bastante impulsionada por uma crise financeira. Desde 2010 o organismo busca uma reforma interna para se adaptar à realidade atual e bastante distinta daquela de sua criação, em 1948. Quando a OMS demora para tomar decisões em momentos de crise, cria-se um vácuo de poder que permite que Estados e empresas privadas tomem decisões unilaterais, como foi o caso do fechamento de fronteiras anunciado pela Rússia e de algumas companhias aéreas europeias que suspenderam todos os voos. Na quinta feira, 30 de janeiro, em meio à pressões e alastramento de fake news, o Diretor Geral da OMS, Dr. Tedros Ghebreyesus, declarou  o coronavírus uma  emergência de saúde pública de importância internacional (ESPII).
Uma ESPII é definida pela OMS como um evento extraordinário que “constitui um risco à saúde pública de outros estados através da disseminação internacional da doença e que potencialmente requer uma resposta internacional coordenada”. Apenas cinco eventos foram considerados ESPII desde o estabelecimento do Regulamento Sanitário Internacional em 2005: a influenza H1N1 em 2009, o ressurgimento do poliovírus em 2014, a epidemia de Ebola na África Ocidental em 2014, o Zika vírus em 2015/16  e um segundo surto de Ebola em 2018/19 em Kivu.
Assim como o Comitê de Emergência da OMS, especialistas em Saúde Pública estavam divididos sobre a necessidade de se considerar o 2019-nCoV uma emergência internacional tendo em vista que a declaração ao mesmo tempo em que  aumenta o apoio e coordenação internacional e os esforços de segurança para contenção da epidemia – além da possibilidade de se liberar mais recursos financeiros -, também pode impactar desnecessariamente o comércio, o turismo e a circulação de pessoas.
Ao declarar emergência internacional, Tedros apelou para que as populações espalhassem fatos e não medos (‘facts not fears’). Assim, se autoridades e especialistas da área da saúde faziam – e seguem fazendo – ponderações  a hashtag #CoronavirusOutbreak  não só virou trending topic no Twitter, como o assunto vem estampando sites de jornais de forma sensacionalista e fake news começaram a “bombar” em correntes de WhatsApp. 
A saúde sempre foi vista como uma linha tênue entre política doméstica e política internacional. Igualmente, a propagação de informações não abalizadas tem também uma linha tênue entre sentimento de segurança ou precaução e o fortalecimento de preconceitos, racismos e esteriótipos, além de violações de direitos humanos dos pacientes.
Em uma breve lida nos comentários ao discurso de Tedros, amparado por um Comitê composto por 21 especialistas de diversos países do mundo –  é possível captar a sensação de caos e de medo, como se estivéssemos à beira do apocalipse. As acusações vão desde argumentos de que o governo chinês estaria escondendo os dados reais com a ajuda da OMS até afirmações que a doença teria surgido de uma sopa de morcego vendida em um mercado de animais em Wahun. Teorias conspiratórias de que, na verdade, milhões de pessoas já estariam infectadas começaram a se espalhar juntamente com vídeos de chineses caídos no metrô e nas ruas ou comendo animais vivos.
Em tempos de fake news, a desinformação acaba por desumanizar pessoas que começam a serem vistas como “o outro”. Com efeito, o conceito de securitização de saúde – que, em linhas gerais, trata saúde como um tema de segurança e não de direito – permite não somente a segregação deste outro, mas, também, a heroicização de medidas que deveriam ser consideradas um ataque aos direitos humanos e às liberdades individuais. Se por anos caminhamos para uma sociedade mais integrada e interdependente, o medo aliado a desinformação passa a legitimar a exclusão de um grupo na sociedade –  pois são pessoas que representam um perigo à vida branca Ocidental. O mesmo foi visto durante a epidemia do Ebola, em 2014, quando – por exemplo – uma faculdade do Texas enviou cartas a possíveis estudantes da Nigéria – não infectados – informando-os de que não aceitariam pedidos de países com “casos confirmados de Ebola”.
Doenças não conhecem ou respeitam fronteiras, mas hoje contamos, não somente, com uma organização multilateral responsável pela saúde internacional. Temos, também, Estados nacionais cada vez mais preparados, além de diversos atores que cooperam desde financeiramente, como as instituições filantrópicas, até uma sociedade civil cada vez mais organizada e ativa em cobrar informações e transparência.
A propagação do coronavírus é tão preocupante quanto a xenofobia e o racismo que muitas vezes guardamos para nós e que em situações apocalípticas não temos vergonha de mostrar. Fechem as fronteiras. Eles contra nós.Assim, como escreveu Albert Camus, em 1947, no romance A Peste, “No calor e no silêncio, e para o coração em pânico dos nossos concidadãos, tudo assumia, aliás, uma importância maior”. Se não fosse pelo silêncio, o trecho seria próprio para o momento, no ano 2020.

Maíra Fedatto é pesquisadora, jornalista pela PUC-RS, mestre em Política Internacional e Comparada pela Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), doutoranda de Relações Internacionais com foco em Saúde Global em regime de co-tutela entre a Universidade de São Paulo (USP) e o King’s College London.


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