segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Cientista de Pirajuí revela causa da hemorragia pulmonar

A hemorragia pulmonar vem sendo descrita como o sintoma mais grave e emergente em pacientes com leptospirose. Enquanto a letalidade para os casos notificados da doença é de 10%, pessoas que desenvolvem essa complicação têm apenas 50% de chance de sobreviver. Entender como os sangramentos surgem no organismo foi o foco do trabalho de Luís Guilherme Virgílio Fernandes, nascido e criado em Pirajuí, vencedor do Prêmio Tese Destaque USP 2019 na categoria Multidisciplinar.
Sob orientação de Ana Lucia Tabet Oller do Nascimento, o biotecnólogo trouxe informações inéditas sobre a patogênese e apontou caminhos para o desenvolvimento de novas terapias. "Apesar de a leptospirose ter sido identificada mais de cem anos atrás, há ainda muito a ser desvendado", comenta Ana.
No início do estudo, Luís Fernandes queria saber se as bactérias interagiam com a protrombina e com a trombina. "Colocamos concentrações aumentadas de trombina, vimos em quanto tempo essa ligação acontecia e qual região dessa enzima era capturada pelas leptospiras", explica o cientista, que passou por várias fases da pesquisa até conseguir seus objetivos.
Pacientes com dengue apresentam, durante a fase inicial da infecção, altos níveis de anticorpos anti-NS1 (proteína do vírus), que reagem de maneira cruzada com componentes da coagulação do hospedeiro (auto-anticorpos). "Parti para investigar se na leptospirose acontecia a mesma coisa", comenta Fernandes. "O esperado era que, no início da infecção, encontraríamos também auto-anticorpos e menos atividade da enzima", detalha.
Amostras de soros de pacientes saudáveis, infectados na fase inicial e na convalescênça da doença, foram incubadas com trombina comercial. Os resultados surpreenderam. Soro de paciente saudável inibiu completamente a trombina, mostrando que os componentes estavam em homeostase. Já com o material de pacientes doentes aconteceu o inverso. "Conforme a infecção avançava, os níveis de inibidores caíam e qualquer quantidade de trombina adicionada mantinha a atividade." Esse foi o primeiro indício de que os fatores e os inibidores eram consumidos na infecção.
"A análise de soro de pacientes mostrou que, novamente, à medida que a infecção avançava, a antitrombina caía", relata Luís Fernandes. "Isso mostra que, se há menos inibidores, há também menos fatores agindo."
Fernandes analisou o montante de protrombina em soro de indivíduos enfermos e os resultados foram muito parecidos com os anteriores. O pesquisador sugeriu, a partir desses dados, que poderia estar havendo um mecanismo indireto da resposta do hospedeiro. Na fase final do trabalho, o cientista infectou hamsters com amostras virulentas de L. interrogans sorovar Kennewick cepa Pomona Fromm e L. interrogans sorovar Canicola - mais hemorrágica que a anterior - e monitorou o soro desses animais por até 21 dias. Hamsters inoculados com solução salina foram usados como controle. "A inflamação é uma faca de dois gumes. Você precisa dela para combater a doença, mas se você não a controla, você tem problemas", afirma Fernandes. "Animais que recebem remédios depois de infectados não conseguem combater a doença porque já existiam muitas leptospiras nos rins, mesmo apresentando sintomas mais brandos", completa.
"Fomos o primeiro grupo a ver que a ligação das bactérias com o fibrinogênio inibia a formação do coágulo de fibrina", explica Ana. "Sabíamos que algumas proteínas mediavam o processo, mas investigamos como isso, de fato, acontece", comemora.
"O sangramento pulmonar é muitas vezes associado aos casos de sepse", explica Hélio Arthur Bacha, consultor da Sociedade Brasileira de Imunologia.
"A interação das leptospiras com a trombina nos dá um novo marcador de gravidade da doença, muito importante na área clínica." Outra parte importante do trabalho, segundo a farmacêutica, foi o estudo dos efeitos dos anti-inflamatórios na infecção experimental pelas leptospiras. "Os benefícios não estavam muito claros e o Luís mostrou como esses medicamentos poderiam reduzir as hemorragias", explica Ana.
Já o pesquisador espera que os resultados abram caminhos para o desenvolvimento de novas terapias. "Identificando as substâncias responsáveis pela hemorragia, conseguiremos produzir proteínas recombinantes para desenvolver vacinas ou, ainda, melhorar as formas de diagnóstico da leptospirose", finaliza.
A leptospirose é uma doença infecciosa causada por bactérias chamadas leptospiras. É transmitida direta ou indiretamente de animais para seres humanos pela urina de roedores, principalmente após enchentes. Ocorre mais frequentemente em locais com condições sanitárias precárias e alta infestação de roedores infectados.
A incidência varia de 1 para cada 100 pessoas por ano em países de clima temperado e de 10 para 100 mil nos trópicos. Diante de eventos climáticos, esse número chega a aumentar dez vezes. Os dados são da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Os principais sintomas da doença são febre, dores de cabeça, dores pelo corpo - principalmente nas panturrilhas -, além de vômitos, diarreia e tosse.
Nos casos mais graves, infectados desenvolvem icterícia, insuficiência renal e hemorragia. A letalidade das formas mais graves é de aproximadamente 10% e chega a 50% quando ocorre a síndrome de hemorragia pulmonar.

Fonte: Jornal da Cidade de Bauru


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