terça-feira, 8 de outubro de 2019

Acuado, presidente do Equador transfere sede de governo para Guayaquil

Rodeado por seu alto comando militar, o presidente do Equador , Lenín Moreno, anunciou nesta segunda-feira que transferiu a sede do governo de Quito para a cidade portuária de Guayaquil, após protestos perto do Palácio de Carondelet, sede do governo. O chefe do Executivo falou em rede nacional de rádio e TV e, durante o discurso, acusou seu antecessor e antigo aliado Rafael Correa (2007-2014) e o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, de quererem desestabilizar seu governo, que enfrenta duros protestos após a alta nos preços dos combustíveis.
Moreno citou a suposta viagem de Correa — que governou o Equador entre 2007 e 2017 e hoje vive na Bélgica — e de seus ex-colaboradores feita, há poucas semanas, para a Venezuela. O presidente acredita que a visita não teria sido uma "coincidência" com os protestos, que já resultaram em 570 detidos:
— O sátrapa (tirano) do Maduro ativou seu plano de desestabilização junto com Correa. Eles são os responsáveis por essa tentativa de golpe e estão usando e instrumentalizando alguns setores indígenas — afirmou durante seu discurso, ladeado pelo vice-presidente Otto Sonnenholzner, pelo ministro da Defesa, Oswaldo Jarrín, e por toda a alta cúpula militar.
Em seu pronunciamento  de três minutos e meio, o presidente equatoriano classificou os atos violentos como "um atentato à democracia". Segundo ele, tais protestos não são uma manifestação de descontentamento social, mas uma tentativa de desestabilizar o governo e romper com a ordem constitucional do Equador.
Enquanto o presidente falava, começavam a chegar ao sul da capital os primeiros manifestantes da marcha convocada pela  Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador  (Conaie), a maior organização indígena do país . Segundo o grupo, que assumiu a liderança dos protestos, a previsão é que pelo menos 20 mil indígenas protestem em Quito nesta terça.
Um dos movimentos indígenas mais importantes da América Latina, o Conaie perdeu um pouco de sua força durante o governo de Correa, que cooptou lideranças do grupo. A decisão do ex-presidente de implantar, em 2009, uma polêmica Lei de Mineração, no entanto, afastou o movimento de seu governo.
Antes do anúncio de Moreno, o Palácio Carondelet  foi esvaziado pelas autoridades, diante dos protestos. Todos os funcionários e jornalistas que cobrem o Executivo e aguardavam uma entrevista coletiva do presidente deixaram o complexo. A Assembleia Nacional do Equador também denunciou que manifestantes tentaram invadir a sede do Parlamento, em Quito, e realizaram atos de vandalismo nas imediações do Palácio Legislativo, na segunda-feira.
O Ministério da Educação suspendeu novamente as aulas em todo o país. As escolas estão vazias desde a última quinta-feira. O prefeito de Quito, Jorge Yunda, declarou estado de emergência na capital diante de uma entrevista na Empresa Metropolitana de Água Potável e Saneamento, onde está trabalhando porque as manifestações e operações de segurança impedem o acesso ao Palácio Municipal. Yunda pediu a todos os prefeitos do país que se disponham a atuar como mediadores entre o governo e os manifestantes.
— Faço um apelo às Forças Armadas e à polícia: o povo não é nosso inimigo. Igualmente aos manifestantes: as pessoas de uniforme não são nossas inimigas — disse Yunda. — Temos inimigos em comum: a delinquência, o desemprego, o narcotráfico. Não geremos uma guerra fratricida.
Na manhã desta terça, quatro vias de entrada e saída de Quito foram fechadas ao trânsito pelas autoridades. Segunda cidade mais importante do país, Guayaquil também tomou medidas de prevenção e fechou ao trânsito suas pontes e pontos de acesso temporariamente por "motivos de segurança".
Já a pasta da Energia, por sua vez, anunciou na segunda-feira a suspensão das operações em três campos petroleiros na região amazônica, "devido a tomada das instalações", segundo um comunicado. Mesmo sem reféns, a pasta solicitou às Forças Armadas "o incremento da proteção" às instalações "para salvaguardar os recursos do Estado".
Os militares, por sua vez, auxiliaram 50 de seus integrantes que haviam sido capturados por grupos indígenas no sábado. Eles foram libertados em termos amistosos.
O governo dos EUA, aliado de Moreno, disse que está acompanhando de perto os "eventos recentes".
— Rejeitamos a violência como uma forma de protesto político — acrescentou o secretário de Estado adjunto interino para Assuntos do Hemisfério Ocidental, Michael Kozak.
Os movimentos sociais equatorianos iniciaram no último dia 2 uma série de protestos contra as reformas trabalhistas e fiscais promovidas pelo governo, previstas em um acordo com o FMI em troca de um empréstimo de US$ 4,209 bilhões. Uma das medidas elevou os preços dos combustíveis em 123% , ao acabar com subsídios em vigor havia quatro décadas. O objetivo é reduzir o déficit público de cerca de US$ 3,6 bilhões este ano para menos de US$ 1 bilhão em 2020.
A resposta de Moreno foi a decretação do estado de exceção no dia 3, que irritou mais ainda os manifestantes. A medida, que vale por 60 dias e pode ser estendida por mais 30,  permite que o governo limite a liberdade de ir e vir da população e imponha censura prévia à imprensa. O decreto  também autoriza o uso de militares na segurança pública e o fechamento de portos e aeroportos.

Fonte: O Globo


Nenhum comentário:

Postar um comentário