segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Mercado de café: sinais apontam para gradual recuperação de preços

O mercado de café vem enfrentando uma temporada, que se mostra consideravelmente longa, de preços baixos. Diante de um quadro global em que a oferta do produto é das mais substanciais, o que se verifica na bolsa de Nova Iorque (referencial para a formação de preços) são cotações limitadas, sendo que recentemente o contrato de maior liquidez chegou a bater nas mínimas de mais de nove anos.
O produtor vem observando, ao longo dos últimos tempos, um cenário nada favorável, no qual os custos de produção são altos, sem que exista uma contrapartida no valor de venda de uma saca. DEBATE ouviu José Luiz Burato, diretor da Burato Corretora de Café, sobre o cenário do mercado atual. Para ele, há uma perspectiva de melhora dos preços.
Ele lembrou que a formação do preço do café leva efetivamente em conta o equilíbrio entre oferta e procura, entre produção e consumo. O mundo teve recentemente a verificação de superávit (maior oferta que consumo) e, diante desse excedente, as cotações se mostraram deprimidas.
Boa parte do referido excedente vem na esteira da safra alta do Brasil em 2018. Já a safra de 2019, que era esperada entre 53 e 55 milhões de sacas foi revisada para baixo recentemente pela Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), para cerca de 49 milhões de sacas. Para Burato, esse menor volume da safra que acaba de ser colhida pelos produtores nacionais pode repercutir no mercado, já que o volume extra será menor.
"O momento de preços baixos teve um lado positivo, que é o fato de o Brasil ter ganhado mercado. O país saiu de 28, 29 milhões de sacas exportadas para 41 milhões. Isso significa que ganhamos mercado de alguém. E só se ganha mercado de duas formas: pela qualidade ou pelo preço. A qualidade de nosso café não mudou, permanece praticamente a mesma, então, ganhamos mercado por preço", disse.
"Se analisar o cenário mundial dos países cafeeiros, Brasil e Vietnã são os dois que possuem uma produtividade bem acima dos outros produtores. Então, embora os preços estejam em baixa, num nível em que muita gente tem dificuldade de tocar seus negócios, acredito que tenhamos um horizonte um pouco mais positivo, já que, diferentemente do que ocorria no passado, boa parte dos nossos concorrentes tem dificuldade maior do que a nossa", complementou Burato.
Caso o clima não traga maiores problemas, a expectativa é que o Brasil deva produzir uma safra de grande porte em 2020, com a possibilidade até de bater em níveis recordes. Mas, mesmo assim, o diretor da Burato Corretora aponta que os preços podem ser mais efetivos que os atuais, justamente por causa de outras origens, excetuando o Vietnã, tenderem a reduzir o volume de suas safras.
"O quadro é diferente do passado, quando o Brasil produzia muito, o preço caía, o produtor não conseguia tratar, a produção brasileira reduzia e o preço voltava a subir. Então, quem determinava o preço do café, as altas e baixas, era a produção brasileira. Acho que esse quadro mudou. O nível de produtividade do Brasil perto dos demais países é muito superior. Embora não esteja dando lucro nesse nível de preço, o custo do Brasil é menor que os demais países. O reflexo na produção de algumas nações vai se mais rápido que o nosso", disse Burato.
Ele, no entanto, alerta que a melhora não seria dos R$ 400 a saca atuais para R$ 600, por exemplo, uma vez que o equilíbrio entre produção e consumo é um processo moroso. Mas o Brasil, como líder em tecnologia para café, com estudos e produção de plantas melhoradas, insumos e mecanização leva vantagem em relação a diversos concorrentes. O país passou de uma produtividade de cerca de 20 sacas para entre 30 e 35 sacas por hectare e possui uma invejável eficiência na produção.
"Transferimos boa parte dessa eficiência via preço lá para fora. Então, estamos produzindo mais, mas vendendo mais barato. Alguns outros países não têm esse nível tecnológico e também não têm tanta chance de mecanização, com nível tecnológico menor", explicou.
Já o clima, na visão do diretor, ainda não representa um problema para o café, mesmo com a estiagem recente e as temperaturas altas. "Aguardamos neste final de setembro e começo de outubro novas chuvas para o pegamento das floradas. O clima é determinante e no inverno é um pouco mais seco. Por enquanto, o clima ainda não atrapalhou, está dentro do padrão. Na safra recentemente colhida tivemos uma seca no início do ano que atrapalhou o enchimento dos grãos, por isso que o volume esperado em 53 a 55 milhões foi revisto para 49 milhões. Neste ano, porém, tivemos algum estresse hídrico, mas nada que prejudicasse tanto", finalizou.

Fonte: Jornal Debate


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